sábado, 31 de dezembro de 2016

TEM GENTE


Tem gente que atrai
Tem gente que trai
Tem gente que distrai
Tem gente que contrai

Tem gente que destrói
Tem gente que constrói
Tem gente que rói
Tem gente que corrói

Tem gente que faz
Tem gente que desfaz
Tem gente que refaz
Tem gente que não faz

Tem gente que é coroa
Tem gente que é patroa
Tem gente que é "de boa"
Tem gente que voa

Tem gente que é palhaço
Tem gente que é pedaço
Tem gente que é abraço
Tem gente que é amasso

Tem gente que ama
Tem gente que reclama
Tem gente que é drama
Tem gente que clama

Tem gente que passa
Tem gente que repassa
Tem gente que caça
Tem gente que é caça

Tem gente que diz
Tem gente que desdiz
Tem gente que é aprendiz
Tem gente que é feliz

Tem gente que é ateu
Tem gente que é judeu
Tem gente que já deu
Tem gente como eu


terça-feira, 27 de dezembro de 2016

RECEITA DE FAMÍLIA

     
Família é prato difícil de preparar. São muitos ingredientes. Reunir todos é um problema, principalmente no Natal e no Ano Novo. Pouco importa a qualidade da panela, fazer uma família exige coragem, devoção e paciência. Não é para qualquer um. Os truques, os segredos, o imprevisível. Às vezes, dá até vontade de desistir. Preferimos o desconforto do estômago vazio. Vêm a preguiça, a conhecida falta de imaginação sobre o que se vai comer e aquele fastio. Mas a vida, (azeitona verde no palito) sempre arruma um jeito de nos entusiasmar e abrir o apetite. O tempo põe a mesa, determina o número de cadeiras e os lugares. Súbito, feito milagre, a família está servida. Fulana sai a mais inteligente de todas. Beltrano veio no ponto, é o mais brincalhão e comunicativo, unanimidade. Sicrano, quem diria? Solou, endureceu, murchou antes do tempo. Este é o mais gordo, generoso, farto, abundante. Aquele o surpreendeu e foi morar longe. Ela, a mais apaixonada. A outra, a mais consistente.

     E você? É, você mesmo, que me lê os pensamentos e veio aqui me fazer companhia. Como saiu no álbum de retratos? O mais prático e objetivo? A mais sentimental? A mais prestativa? O que nunca quis nada com o trabalho? Seja quem for, não fique aí reclamando do gênero e do grau comparativo. Reúna essas tantas afinidades e antipatias que fazem parte da sua vida. Não há pressa. Eu espero. Já estão aí? Todas? Ótimo. Agora, ponha o avental, pegue a tábua, a faca mais afiada e tome alguns cuidados. Logo, logo, você também estará cheirando a alho e cebola. Não se envergonhe de chorar. Família é prato que emociona. E a gente chora mesmo. De alegria, de raiva ou de tristeza.

      Primeiro cuidado: temperos exóticos alteram o sabor do parentesco. Mas, se misturadas com delicadeza, estas especiarias, que quase sempre vêm da África e do Oriente e nos parecem estranhas ao paladar, tornam a família muito mais colorida, interessante e saborosa.

    Atenção também com os pesos e as medidas. Uma pitada a mais disso ou daquilo e, pronto, é um verdadeiro desastre. Família é prato extremamente sensível. Tudo tem de ser muito bem pesado, muito bem medido. Outra coisa: é preciso ter boa mão, ser profissional. Principalmente na hora que se decide meter a colher. Saber meter a colher é verdadeira arte. Uma grande amiga minha desandou a receita de toda a família, só porque meteu a colher na hora errada.

    O pior é que ainda tem gente que acredita na receita da família perfeita. Bobagem. Tudo ilusão. Não existe Família à Oswaldo Aranha; Família à Rossini; Família à Belle Meunière; Família ao Molho Pardo, em que o sangue é fundamental para o preparo da iguaria. Família é afinidade, é “à Moda da Casa”. E cada casa gosta de preparar a família a seu jeito.

    Há famílias doces. Outras, meio amargas. Outras apimentadíssimas. Há também as que não têm gosto de nada, seriam assim um tipo de Família Dieta, que você suporta só para manter a linha. Seja como for, família é prato que deve ser servido sempre quente, quentíssimo. Uma família fria é insuportável, impossível de se engolir.

     Enfim, receita de família não se copia, se inventa. A gente vai aprendendo aos poucos, improvisando e transmitindo o que sabe no dia a dia. A gente cata um registro ali, de alguém que sabe e conta, e outro aqui, que ficou no pedaço de papel. Muita coisa se perde na lembrança. Principalmente na cabeça de um velho já meio caduco como eu. O que este veterano cozinheiro pode dizer é que, por mais sem graça, por pior que seja o paladar, família é prato que você tem que experimentar e comer. Se puder saborear, saboreie. Não ligue para etiquetas. Passe o pão naquele molhinho que ficou na porcelana, na louça, no alumínio ou no barro. Aproveite ao máximo. Família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete.

(de "O Arroz de Palma, de Francisco Azevedo)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

FRENTE E VERSO


Você quer saber como te amo?
Olhando de cima ou de baixo pra cima;
Sentada no meu colo ou deitada sobre mim,
Vertendo lágrimas de emoção ou chorando de dor;
Andando ao meu lado ou caminhando distante de mim;
Olhando fixamente nos meus olhos ou fitando o horizonte;
Quebrando protocolos ou sendo rígida quanto aos rituais;
Lúcida quanto ao futuro ou grogue quanto ao presente;
De cabeça erguida ou reclinada sob meus ombros;
Segurando minha mão ou pegando no meu pé;
Dando conselhos ou recebendo orientações;
Beijando ou deixando-se beijar;
Usando short ou vestidinho;
Servindo ou sendo servida;
Bocejando ou despertando;
Cantando ou ouvindo canções;
Articulando ou sendo surpreendida;
Fazendo comida ou sendo o prato do dia;
Cultivando árvores ou colhendo seus frutos;
Sendo meu objeto de estudo ou minha referência;
Palestrando ou refletindo sobre o que foi palestrado;
Na capital do meu cérebro ou no interior do meu coração;
Lendo um bom livro ou assistindo a sua versão cinematográfica;

Enfim... Em termos literários eu diria que te amo de frente e verso!

MUITO IMPORTANTE

           "De acordo com os dados mais recentes do DataSUS, do Ministério da Saúde, referentes a 2018, o País apresenta por dia ...

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