quinta-feira, 24 de julho de 2014

ARRODEANDO O CÉU




Ariano Suassuna arrodeia o céu

Digam logo que é mentira. Desdigam essa bestagem de que a notícia é de verdade verdadeira, que houve morte morrida. Falem, aí, que num tem literatura se acabando em choro, num tem caba macho das letras se arriando ao contrário pro meio céu.
Oxe. Avisem que ele é pai de Chicó, que brinca de morrer, morre, desmorre e ressucita com a gaita de João Grilo… Depois corre pra dançar. Dançar com as palavras

Chamem a Compadecida para dar colo ao nosso susto. “Mainha, a gente não quer ser filho de um mundo sem o talento monstruoso de um homi assim”.

Cabô o pantim. Cabô o aperreio. Nosso mestre não deu pinote. A vida nao foi pirangueira nos seus 32 mil dias de reinação.

Foi tudo graça pra nos fazer Severino de besta. Foi fuleragem, foi gaiatice. E deixem um cotôco de esperança pra gente soluçar.

Toquem o clarim. Tenham misericórdia do nosso egoísmo. Manguem da gente, que a gente quase acreditou. Os gênios jamais morrem.

Ave Maria. Ave José. Que cordel triste se fez hoje. Chora a cachorrinha. Chora a mulher do padeiro. Chora quem arrastou com ele um sotaque tão nordestino e um tão nordestino coração. Chora o Movimento Amorial. Chora de novo a mulher chorona do padeiro. Chora seu Manoel, chora Rosinha, chora o gatilho do cangaceiro. Chora, quietinha, a Academia Brasileira de Letras. Choram os livros. Choram os palcos. Choram até os grilos, seus homenageados.

O céu, meu pai, faz zuada, sorri feliz e se enche de causos. De palhaços, da mulher vestida de sol. Se enche das harpas de Sião e dos homens de barro. Se enche de amor. De humor. O céu inteiro espera. Se prepara. Corre. Transpira nossa agonia. E sua… ssuna.

O santo. A porca.

O homem da vaca.

O príncipe de Sangue.

A Caseira. A Catarina

Fernando e Isaura.

A onça Caetana.

Nas conchambranças de Quaderna… Se danam a rir e a chorar.

Corta.

No último do penúltimo ato, o paraibano-pernambucano abre o olho pra reclamar: “Deixem agorinha de frescura. Eu sou eterno quando lido, e lido bem com isso. Esse negócio de eternidade deve cansar”.

Mas a gente segue precipitado, abuticado… E os zoinho dele voltam a fechar.

Corta.

“João! João! Morreu! Ai meu Deus, morreu pobre de João Grilo! Tão amarelo, tão safado e morrer assim! Que é que eu faço no mundo sem João? João! João! Não tem mais jeito, João Grilo morreu. Acabou-se o Grilo mais inteligente do mundo. Cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre. Que posso fazer agora?”.

Que posso fazer agora?

Que posso sentir agora?

Que posso dizer agora?

Que posso contar agora se não dessa orfandade que hoje quase me pariu?

…Não sei. Só sei que foi assim.

(Texto de Observatório Feminino)

sábado, 12 de julho de 2014

FIM DE JOGO


Meus olhos parecem não acreditar no que estão vendo. Olho para o lado e vejo uma criança chorando, envolta em uma bandeira; olho para o outro e vejo, boquiabertos, vários homens, estáticos e melancólicos, cena contrastante com a proposta do lugar e do espetáculo; busco nessa hora respostas pra tantas perguntas, mas curiosamente não as encontro. Aquela inesperada situação vivida em um ambiente, minutos antes, estimulante e festivo, parece tão surreal que as palavras não conseguem sair de minha boca...
Após alguns instantes de anestesiante dor e surpresa, meus ouvidos começam a funcionar e os gritos de choro, palavrões e acusações dominam o espaço em que me encontro. Não sei se choro, se me uno aos que bradam pela morte da líder máxima do meu país, se xingo a progenitora dos protagonistas da desgraça alheia ou se participo do silêncio gritante dos protestos, cujas lágrimas abundantes são o principal estandarte da revolta nunca antes sentida.
Começo a ter lapsos de consciência e a perceber que neste dia estou participando de um momento histórico. Infelizmente, preciso entender que nem sempre isso é bom ou estimulante, entretanto, impreterivelmente me levará a reflexões profundas sobre o mesmo. A primeira reflexão que me vem à mente é que eu não tenho sete motivos pra desistir da minha paixão pelo futebol ou pela seleção brasileira, mas 31 motivos para crer que a frustração e a tristeza são muito mais comuns em um torneio como a copa do mundo, do que a glória e o prazer, afinal, são 32 seleções lutando pela realização de um mesmo sonho!
Volto para casa em meio a brados retumbantes de indignação e revolta, ouvindo buzinaços de raiva, vendo homens descontrolados queimando camisas e bandeiras amarelas, outros quebrando o que veem pela frente. Chego na minha rua e me deparo com a vizinhança arrancando bandeirinhas presas nos carros, nos postes e antenas de tv, mulheres jogando água nas pinturas das calçadas e alguns jovens sentados no meio fio como se tivessem perdido um ente querido. Com um olhar de soslaio verifico que nem todos demonstram descontentamento, existem algumas pessoas que nas suas rodas de conversa utilizam em cada início de frase expressões do tipo: “Eu sabia!”, ou “Achei foi bom!”. Um misto de emoções prepondera naquele cenário que há poucas horas era de intensa festa e alegria.
Ninguém espera ser humilhado ou sair derrotado de nada na vida, mas assim é o decurso de nossa existência. São muitas portas batidas na cara, muitos “nãos”, tantos gritos de “ais” que deveríamos estar acostumados ao infortúnio, mas a verdade é que nenhum de nós nasceu pra perder e quando isso acontece em nossa casa e da maneira como aconteceu parece que o fundo do poço chegou. O problema é que o poço da angústia e do fracasso não tem fundo. Ele sempre nos diz que algo que está ruim sempre pode piorar...
Diante de uma copa sem grandes problemas, repleta de emoções, de grandes lances, de gols belíssimos, de imagens de encher os olhos, de confraternização mundial acontecendo em nosso país, só conseguimos nessa hora enxergar a decepção originada por uma saraivada de gols em uma partida de futebol. Pior que isso é começar a misturar as coisas e passar a colocar em campo partidos políticos, religiões, teorias tresloucadas de conspiração, talvez para que sejam encontradas explicações plausíveis para a maior catástrofe do futebol brasileiro em todos os tempos!
Devemos ter orgulho de nosso país sim! Pelo simples fato de que ele não pode ser resumido a política, futebol ou samba. Ele é muito mais que isso. As lágrimas derramadas na derrota esportiva são válidas sim! O rosto pintado em homenagem à seleção é válido sim! As bandeiras espalhadas pela casa, a camisa verde e amarela vestida com orgulho, o barulho dos brinquedos (irritantes, diga-se de passagem), o som das músicas antigas e novas em alusão ao sonho do título, tudo isso é válido sim!
Pessoas que reclamam da situação do nosso país no tocante a saúde caótica devem buscar meios para solucionar o problema em rodas de conversa, focando no alvo. Quem discute a corrupção no Brasil deveria deixar de ser primeiro, quem fala mal de governantes deveria lembrar pelo menos em quem votou nas eleições passadas, quem diz que a educação vai de mal a pior deveria conhecer mais de perto a realidade das escolas a partir do acompanhamento aos filhos que estudam nelas.
Tentar resolver problemas sérios de infraestrutura, de saneamento básico, de segurança pública, ou de qualquer outra ordem, xingando, gritando, postando ou blasfemando, de forma alguma resolverá o problema. Apenas mostrará nossa incompetência para assumir que ainda precisamos amar nosso país, antes de partirmos pra luta por uma sociedade mais justa, cumpridora dos deveres e fiscalizadora dos gastos públicos. Criticar é fácil, argumentar é fácil, apontar é fácil, xingar é fácil. Difícil é amar! Quem ama cuida! Não estimula a anarquia, o quebra-quebra, não vê governante em tudo o que acontece de errado na nação, antes, se vê, porque quem faz o país somos nós, quem os coloca no poder somos nós. Tudo o que acontece são nossas mazelas, nossa ineficácia, nossa corrupção, nosso problema. Só assim começaremos a mudar nossa história. Para melhor.
Na esfera futebolística, fortes debates podem e devem fazer parte de qualquer partida, ainda que vexaminosa. Ser o país do futebol é apenas um título que professamos ter, mas que em momentos de dor como esse na copa, pode e deve ser repensado para que nossa autoestima volte a crescer. Simples assim.
Na esfera política, fortes debates podem e devem fazer parte de qualquer momento político, ainda que estejamos em situação vexaminosa no panorama mundial. Ser um país democrático e socialmente justo não deve ser comparado a um título esportivo, porque ele vem e vai ao sabor do vento (quem não lembra do penta conquistado justamente em cima dos alemães em 2002?). Neste caso não é a nossa autoestima que deve ser levada em consideração, mas a nossa qualidade de vida. Os alemães, assim como os holandeses, os italianos, os franceses e os ingleses orgulham-se do seu país, independente do futebol. Por que não aprendemos com eles, afinal, temos ou não mais motivos para sermos felizes?

Nesta esfera, felizmente, ao contrário do que muitos pensam, o jogo ainda não acabou. A goleada ainda pode acontecer em nosso favor...

MUITO IMPORTANTE

           "De acordo com os dados mais recentes do DataSUS, do Ministério da Saúde, referentes a 2018, o País apresenta por dia ...

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