_Calma, Braulio, deixa ele chegar primeiro, depois a gente faz o pedido.
_É que eu tô com muita fome, mãe! Mãe... Espera um pouco... Quem estamos esperando?
A porta do restaurante se abre de repente e uma figura conhecida aparece.
_Não é possível! _Muito surpreso, Braulio contempla a cena _Pai?
_Oi, filho! _Ivanildo, muito bem vestido, observa sem entender os olhos arregalados de seu filho voltados para ele.
Braulio comemorava mais um ano de vida. Aquele era um dia especial não apenas pelo seu aniversário, mas porque estava vendo de novo o pai que não via desde que o mesmo falecera há 15 anos. Mas inexplicavelmente ele estava ali, de pé, diante do filho e a cena impossível, aos poucos, era assimilada pelo jovem e atônito rapaz.
_Pai, você está aqui?
_Claro, filho! Você acha que eu perderia esse momento?
No mesmo instante, já com lágrimas nos olhos, Braulio se levanta e corre ao encontro do pai para abraça-lo. Aquele não era um abraço comum. O aperto e o roçar de seus dedos nas costas do pai evidenciavam algo diferente. Como era possível o reencontro? Ivanildo rompe o silêncio:
_Sim. Sim! Estou ótimo! É que... É maravilhoso te ver!
Ambos sentam-se à mesa. Braulio contempla maravilhado o pai e pensa que aquilo só pode ser um sonho, mas que ele não quer acordar. Pensando que isso pode acontecer a qualquer momento, olha para sua mãe que está ainda sem entender o comportamento do filho e pede gentilmente:
_Mãe, você poderia nos deixar um momento a sós? Sabe como é, né? Conversa de homens...
_Sim, claro, Braulio. Vou aqui no banheiro. _ Ela levanta-se e sai.
_Braulio, você está realmente bem? _ Ivanildo pergunta com curiosidade.
_Sim, pai, está tudo perfeito!
_Então diga, que "conversa de homens" você quer ter comigo?
_Pai... Puxa, como é difícil falar isso. Olha...
Ivanildo pega suas trémulas mãos, olha seu rosto já vermelho de tanta emoção e dá um leve sorriso. Um sorriso que Braulio amava tanto...
_Pai. Meu pai... Eu quero que saiba de uma coisa.
Naquele instante sente um frio estranho nos pés. Percebe que o lençol que o cobria naquele noite de sonhos mágicos saíra do lugar devido a seus movimentos de profunda emoção e procura falar rápido, contundente, e sem se mexer muito...
_Pai... Quero que saiba o quanto amo você.
_Oh... Também amo você, meu filho!
_Não, pai, é sério! _Após uma breve pausa e com um olhar mais sereno, continua: _As pessoas dizem “eu te amo" o tempo todo... Mas só quando você não pode mais falar pessoalmente é que se dá conta do quanto queria dizer. Você é maravilhoso...
_Nem tanto, filho. Fiz tanta coisa errada em minha vida...
_Você é sim maravilhoso! Independente de seus erros. Todos cometemos erros na vida, mas você acertou muito mais do que errou! Por isso você é tão maravilhoso e tão incrível! Eu... Eu espero ser um dia metade do homem que você é.
Ivanildo deixa cair uma singela lágrima e volta a sorrir.
_Você fala sério? Se sou esse homem hoje é porque tenho você! Escuta... Nunca contei isso pra ninguém antes. Quando sua mãe engravidou, eu fiquei muito assustado. Eu era jovem, ela também. Tínhamos tantos outros planos para nós e você na barriga dela indicava que as coisas nunca mais seriam como antes. Eu estava muito nervoso com a ideia de ser pai.
_Oh, pai...
_Espera! _Respirou profundamente, fez uma breve pausa e continuou _Mas quando segurei você pela primeira vez, algo mudou dentro de mim. Instantaneamente! O melhor tipo de amor faz isso. Ele muda você! Torna você uma pessoa melhor!
_Oh, pai, como eu sou bobo! Achei que poderia ter tudo, mas não posso...
_Meu filho, ninguém pode. Mas quer saber? Está tudo bem. Você terá nessa vida tudo o que precisar.
_Espero que sim...
_Venha aqui. Sente em meu colo. Você sempre será meu garotinho!
Minha mãe voltou do banheiro...
Meu pai me abraçou forte...
Meus olhos não deixavam de olhar para ele e as mãos da minha esposa puxavam-me novamente pra vida real.
Nossa vida é feita de sonhos e realidades. Tem horas que queremos que tudo seja apenas um sonho e que acordemos depressa. Em outros momentos esperamos não acordar... É nessas horas que pensamos que o tempo leva tudo: Canções, sorrisos, abraços, apertos de mão, conselhos e orientações. Mas o amor verdadeiro... Ah, esse fica. E É MUITO REAL!
(Sonho baseado na obra ficcional “A morte te dá parabéns”)

