quinta-feira, 28 de novembro de 2019

REDAÇÃO




       Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador. Um substantivo masculino, com aspecto plural e alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. O artigo era bem definido, feminino, singular. Ela era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingênua, silábica, um pouco átona, um pouco ao contrário dele, que era um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanático por leituras e filmes ortográficos. O substantivo até gostou daquela situação; os dois sozinhos naquele lugar, sem ninguém a ver nem ouvir. E sem perder a oportunidade, começou a insinuar-se, a perguntar, conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado e permitiu-lhe esse pequeno índice. De repente o elevador para, só com os dois lá dentro. Ótimo, pensou o substantivo. Mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos. Pouco tempo depois já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeçou a movimentar-se. Só que em vez de descer, sobe e para exatamente no andar do substantivo.
       Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela no seu aposento. Ligou o fonema e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, suave e relaxante. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram a conversar, sentados num vocativo, quando ele recomeçou a insinuar-se. Ela foi deixando, ele foi usando o seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo. Todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo direto. Começaram a aproximar-se. Ela tremendo de vocabulário, e ele sentindo o seu ditongo crescente. Abraçaram-se numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples passaria entre os dois. Estavam nessa ênclise, quando ela confessou que ainda era vírgula. Ele não perdeu o ritmo e sugeriu-lhe que ela lhe soletrasse no seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, pois estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para o comum de dois gêneros. Ela, totalmente voz passiva. Ele, completamente voz ativa. Entre beijos, carícias, parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais. Ficaram uns minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto, tomava a iniciativa. Estavam assim na posição de primeira e segunda pessoas do singular. Ela era um perfeito agente da passiva; ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular. Nisto a porta abriu-se repentinamente.
        Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo e entrou logo a dar conjunções e adjetivos aos dois, os quais se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas, ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tônica, ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar logo diminuiu os seus advérbios e declarou a sua vontade de se tornar particípio na história. Os dois olharam-se, e viram que isso era preferível a uma metáfora por todo o edifício. Que loucura, meu Deus! Aquilo não era nem comparativo. Era um superlativo absoluto. Foi-se aproximando dos dois com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado aos seus objetos. Foi-se chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, e propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que as condições eram estas: Enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria no gerúndio do substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino. O substantivo, vendo que poderia transformar-se num artigo indefinido depois dessa situação, e pensando no seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história. Agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, atirou-o pela janela, e voltou ao seu tema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.

(Por: Fernanda Braga da Cruz)

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER


No Brasil, o lugar mais perigoso para uma mulher não são ruas ou becos escuros, mas suas próprias casas. É entre quatro paredes que acontece a maior parte dos casos de feminicídio registrados no país.

Essa infeliz realidade é comprovada por inúmeras pesquisas. Entre 2016 e 2017, 66% dos casos de morte de mulheres em São Paulo aconteceram na residência da vítima, segundo o estudo “Raio-x do Feminicídio em São Paulo“, do Ministério Público.

Os parceiros representam 36% dos autores dos ataques, e as mulheres negras são os principais alvos de todos os tipos de violência.

Especialistas alertam que a política do atual governo de ampliar as possibilidades para posse de arma de fogo por cidadãos comuns pode deixar as mulheres mais vulneráveis em casa.

As estatísticas e a decisão do governo federal geram dúvidas sobre como serão os próximos anos para as brasileiras que vivem no quinto país que mais mata mulheres do mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde.

“De agora em diante precisaremos de atenção redobrada. Já vivemos em um lugar em que falta compromisso público para defender as mulheres de seus agressores. Com a liberação das armas, essa realidade vai aumentar”, afirma Maria da Penha.

Vítima de dupla tentativa de feminicídio, que a deixou paraplégica após levar um tiro nas costas enquanto dormia, Maria da Penha lutou na justiça por mais de 20 anos.

A Lei Maria da Penha veio em 2006 como uma “homenagem” do governo brasileiro por todo o tempo que esperou. “A mulher luta muito pela vida e o que ela quer é que o agressor a trate com consideração e que haja respeito”, completa.

Um dos argumentos usados pelos apoiadores da flexibilização da posse de armas é o de que as mulheres também vão se beneficiar com isso.

“Em breve, a mulherada do meu país andará em cima do salto e com sua arma para se defender de estupradores”, justifica a deputada federal Joice Hasselman. 

Especialistas, no entanto, discordam dessa suposição. Stephanie Morin, gerente de Gestão do Conhecimento do Instituto Sou da Paz, explica que o debate sobre a flexibilização sempre foi e continua sendo protagonizado por homens.

“Eles não perguntam nossa opinião. A maioria das mulheres vítimas de agressão doméstica são dependentes financeiramente e emocionalmente de seus parceiros. Elas não vão desembolsar 4 mil reais ao invés de colocar comida na mesa”, explica.

(Por: EXAME)

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

ASSIM É A VIDA



         Árvores caem. Celulares ficam sem bateria. Canetas perdem a tinta bem na hora da assinatura. Iogurtes esquecidos na geladeira passam do prazo de validade. Crianças gritam durante o recreio. Fones de ouvido estragam logo. Sofás desbotam se expostos ao sol.
      Folhagens murcham. Gatos afiam as unhas no tapete. Óculos entortam dentro da bolsa. Chove às vezes por quatro dias seguidos. Esmaltes descascam. Consultas médicas são desmarcadas. Abdominais custam a dar resultado. Vizinhos escutam música ruim que entra por nossas janelas.
Pontas de lápis quebram. Copos também, pratos lascam. Números não identificados ligam para nossos celulares. Motoristas de aplicativos não conhecem as ruas da cidade. Roupas velhas emboloram. Garçons erram pedidos. Vinho mancha. Botões não fecham quando a gente engorda. A gente engorda.
     A diarista adoece e falta. Carros enguiçados atrapalham o trânsito. Cachorros fedem quando não tomam banho. Chaves são perdidas. Voos atrasam. Serviço de quarto de hotel é demorado. Políticos mentem. Times empatam em 0 x 0. Horóscopos não acertam. Discursos se arrastam. Churrascos queimam se o assador se distrai.
        Violões desafinam. Amigos somem. O dólar sobe na véspera da viagem. Histórias não batem. Sites de bancos emperram. Ninguém compra o apartamento que colocamos à venda. Chatos nos alugam. Idiotas apertam em todos os andares do elevador. Motores apagam no meio do engarrafamento. Os convidados erram no presente.
        Malas extraviam. Tomates apodrecem. Testes de bafômetro dão positivo. Filhos não comem direito. Terapias demoram. Salsichas são suspeitas. Roda-se em provas de autoescola. Corretores de whatsapp nos constrangem. Infiltrações na parede se repetem. Prédios altos tapam a visão. Filmes saem de cartaz. Baratas aparecem.
         Chatices acontecem. E os resmungões nos alugam.
         Mas novidades aparecem. Coisas boas se repetem. Testes de gravidez dão positivo. O beijo é demorado. Reuniões de condomínio são desmarcadas. Pessoas interessantes ligam para nossos celulares. Tiranos caem. Pessimistas não acertam. Dá praia por quatro dias seguidos. Cachoeiras não fecham. Preconceitos somem. Recordes são quebrados. Amantes se conhecem no meio do engarrafamento. A temperatura sobe na véspera da viagem. Vizinhos escutam música boa que entra por nossas janelas. Homofóbicos saem de cartaz. Espumantes são abertos bem na hora da assinatura. Amores não acabam quando a gente engorda. A vida se renova se exposta ao sol.

(Por: Martha Medeiros)

sábado, 9 de novembro de 2019

LIBERDADE


Ninguém nasceu para estar preso ou confinado. Tanto que a falta de liberdade é uma das formas mais comuns de castigo em nossa sociedade. Ser livre parece ser um desejo de todo ser humano.

Como definir o que é liberdade? De acordo com o dicionário Houaiss, liberdade é o direito de expressar qualquer opinião, agir como quiser; independência. Ter licença ou permissão. É também a condição de não ser prisioneiro ou escravo. 

A liberdade se desdobra em diversos tipos: de pensamento, de opinião, política, religiosa, etc. Todas essas variações tentam localizar nossas possíveis experiências de autonomia e de não dependência. 

(Por: Carolina Cunha, da Novelo Comunicação) 










MUITO IMPORTANTE

           "De acordo com os dados mais recentes do DataSUS, do Ministério da Saúde, referentes a 2018, o País apresenta por dia ...

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