domingo, 27 de janeiro de 2013

FIM DE FESTA...

     "Eu não conhecia o garoto que derrubou o segurança para tentar abrir a porta e tentar escapar da morte; eu não conhecia a menina que simplesmente jogou os sapatos de salto em um canto e correu para onde todos estavam indo, na esperança de ver o céu escuro e seguro do lado de fora da boate; eu não conhecia a banda, que por mais que não soubessem das consequências, matou mais de duzentos e quarenta pessoas; mas nesse momento, a única coisa que me resta conhecer é um Brasil que não sabe dizer o quanto sente muito por não ter mais saídas disponíveis naquele lugar; é uma mãe, que chora desesperada porque o filho não vai mais voltar pra casa; é um irmão, que não acredita que o possível "herói" dele está morto. Todo mundo morreu um pouquinho ao ouvir no noticiário que tantas vidas, tantas almas novas se foram sem realizar seus sonhos, sem alcançar suas expectativas, sem um adeus digno. Ninguém sabe se abraça os pais, se acalma as crianças ou as deixa chorar, se fica revoltado com as falhas enormes que custaram vidas, ou se tenta viver como se nada tivesse acontecido, como se não se importasse. E tudo isso me dói, me dói saber que poderia ter sido com alguém próximo, que eu amasse, alguém que me fizesse sorrir todo dia, porque querendo ou não, o motivo de alguém ser feliz não está mais entre nós. Não há mais nada o que fazer; os corpos já estão no legista, as lágrimas já rolaram, a respiração já foi sessada, e os "eu te amo" já não foram ditos. Pra nós, os vivos, resta tirar uma lição disso: viver. É tão clichê dizer que é pra se viver o agora, sem esperar o amanhã quando o trabalho nos ocupa todo dia, quando não nos importamos mais com o que fazer para o jantar, quando um abraço e um beijo são trocados somente em momentos ultra especiais, porém eu só peço que procurem não ter arrependimentos ou coisas pendentes na vida; se é pra fazer, que faça hoje, não espere o depois, porque como aprendemos com a tragédia na boate em Santa Maria, o amanhã pode não chegar, não é mesmo?"




Por Andressa Pimentel

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

TANTA DOR...




O que é a dor? 
A dor é uma sensação tão indescritível quanto profunda. 
A dor física é apenas a observação latente do cérebro de que algo desagradável aconteceu em alguma parte do corpo. 
Qualquer parte.
Interna ou externa. 

Quando, entretanto, ocorre a dor da alma, não existem palavras em qualquer vocabulário moderno ou retrógrado, erudito ou coloquial, regional ou universal que possa defini-la. 
A constância, a intensidade, e a frieza com que ela se aloja no peito leva o doente a sentir medo da vida, medo de sorrir, medo de ver os ponteiros do relógio desenvolverem seus sepulcrais movimentos de prosseguimento e de continuidade aparentemente sem fim. 
Nossos passos retrocedem, nossas buscas por respostas se tornam mais agressivas, perdemos noção dos porquês, constatamos que as lágrimas exteriorizadas nada mais são do que uma ínfima demonstração de que o estrago é bem maior do que parece ser. 

O prazer sem limites da presença dá lugar a melancolia ilimitada da ausência, o ermo que se forma no coração leva a vida ao esmo, a falta de propósito torna o caminhar apenas uma mera repetição de gestos e atitudes sem essência e consequentemente sem esmero. 
O vácuo preenche cada espaço, a negritude vislumbrada ao longe torna-se o único refúgio para quem já não tem motivos para ver as cores e formas, ouvir sons e vozes, sentir toques e afagos... 

O futuro, o ano-novo, as promessas, idealizações, aspirações e desejos perdem razão de tal maneira que até a razão desconhece. 
Resta-nos apenas a esperança de que um dia essa dor vai passar, quando o calor do corpo já tão sem sentido desvanecer, quando o único lugar verdadeiramente nosso for ocupado, quando a própria dor deixar de ser a causa para se tornar o efeito.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

RÉVEILLON


Na praça central de uma pequena cidade do interior, dois senhores discutiam desde cedo, enquanto observavam a movimentação de lojistas, funcionários e consumidores, sobre o consumismo nesse fim de ano. Durante a conversa, viram uma jovem senhora muito bonita e distinta entrando em uma loja de plásticos que mal terminara de abrir e ficaram a pensar sobre os apelos do comércio e a ingenuidade dos compradores compulsivos. Enquanto isso, a mulher chegou na loja e escolheu dez milheiros de sacos plásticos fabricados com polipropileno, que tem boa resistência ao impacto, possui boa estabilidade térmica, elevada resistência química, de fácil coloração e de considerável durabilidade: Perfeitos para guardar brinquedos, copos, recipientes para alimentos, autopeças, ferramentas manuais, entre outros. Como a balconista não encontrou toda a quantidade solicitada pela freguesa, pediu que aguardasse alguns minutos e entrou na fábrica para buscar direto nas máquinas o complemento do pedido. Chegando lá, viu apenas um operador trabalhando, pois este decidiu chegar mais cedo naquele dia, e ao se aproximar e pegar a quantidade que queria, após pedir ao funcionário que anotasse a retirada do produto, não pôde deixar de notar o suor escorrendo pelos braços fortes do rapaz, mas sujos de tanta graxa aspergida involuntariamente no momento em que consertava a máquina corte-solda, em uma de suas muitas lutas diárias pra levar sustento a sua família. O rapaz ganhava por produção e não podia esperar o mecânico vir até a fábrica para consertar a máquina. Aprendeu a fazê-lo pelo simples instinto de sobrevivência. O mesmo instinto que levou o mecânico da fábrica a buscar meios alternativos de renda, trabalhando em outro expediente como vigia em um pequeno banco localizado no centro da cidade.
Todos os dias o mecânico/vigia via pessoas entrando e saindo da agência, uns com ar de alegria, outros com tristeza no semblante. Os primeiros eram analisados pelo rapaz como cidadãos propensos a assaltos do tipo “saidinha de banco”, haja vista que o rosto, a carteira recheada mal escondida no bolso de trás da calça jeans, em início de mês, davam sinais inequívocos de prosperidade econômica. Os outros, embora pudessem estar treinando para ator ou atriz de novela, revelavam aquilo que tem se tornado a cada dia a sina do povo brasileiro: ou não tinham dinheiro no banco ou se despediram dele rapidamente em possíveis transferências ou pagamentos.
Um sujeito em particular, com lágrimas no rosto, saiu do banco segurando um dos muitos panfletos que são distribuídos nos semáforos espalhados pelo centro da cidade, mas demonstrava profunda reflexão, como se estivesse decidindo o que fazer com tão pouco dinheiro no bolso. Um menino de aproximadamente sete anos sentou ao seu lado na pracinha localizada na frente do banco e lhe pediu um trocado. A resposta não deve ter sido muito boa, já que a criança levantou-se rapidamente sem nada nas mãos e com muita expressividade no olhar seguiu o seu irremediável caminho. Uma moça que ia passando e observou a cena chamou o menino e depositou em suas mãos algumas moedas. O sorriso dela parecia maior que o dele.
Ela entrou no banco após cumprimentar seu colega, o vigia, e no canto esquerdo da agência, no local reservado para consórcios e seguros, pôs sua pasta sob uma escrivaninha, e começou a conversar com um possível cliente pelo seu celular, expondo condições, prazos, valores, investimentos rentáveis, pouquíssimos riscos e altíssima confiabilidade no empreendimento proposto.
Do outro lado da linha estava um senhor de cabelos grisalhos e olhar sereno, que conversava com a moça e ao mesmo tempo procurava no diário oficial o resultado do concurso no qual havia recebido o comunicado por parte de um colega de profissão, que tinha sido convocado. O colega, um taxista antigo, que tinha medo de perder o amigo caso ele viesse a ser contratado como agente administrativo em uma repartição pública, pensava ao mesmo tempo na felicidade da família do amigo de cabelos grisalhos ao, pela primeira vez, conseguir a tão sonhada estabilidade financeira, ainda que perto do meio século de existência.
A proposta de seguro para seu carro apresentada animadamente pela jovem do banco não foi suficiente para sustentar a ligação, que se findou bruscamente quando o senhor leu seu nome no edital de convocação. Abraços e gritos de alegria entre companheiros taxistas misturavam tristeza pela saudade que a partir de então os acompanharia, mas felicidade pelo futuro que descortinava-se a sua frente.
Do outro lado da calçada passava uma mulher madura, do alto dos seus 37 anos, que não deixou de se comover com as lágrimas e os abraços dos taxistas. Entendeu que no mínimo era uma comemoração especial. Também pudera, era fim de ano e o espírito de harmonia  e felicidade costuma visitar os corações nessa época do ano. A mulher seguiu seu caminho rumo a loja da qual era proprietária, carregada com dez milheiros de sacos plásticos que acabara de comprar na loja especializada.
Chegou, jogou as compras no balcão e cumprimentou os fregueses e a operadora do caixa, que não via a hora de terminar o expediente e correr para abraçar os filhos e abrir os presentes que comprou na própria loja que trabalha, para ser descontado em seus próximos três salários. O sorriso que imaginava receber dos filhos valeria qualquer sacrifício, já que seu ex-marido havia dito apenas ontem que este ano não poderia participar do réveillon com os filhos.
Ao final do dia, já com dez minutos após o expediente, a moça do caixa atendia os últimos clientes com a loja já com as portas fechadas. Percebeu no rosto de cada um deles um sorriso de satisfação não visto em tanta gente em outra época do ano. Passaram por ela o operador de corte-solda, cheio de presentes no seu carrinho, conversando alegremente com a colega balconista, também carregada de presentes e o mecânico/vigia de Banco; o senhor de cabelos grisalhos, Diário Oficial na mão e lágrimas de alegria no olhar; a vendedora de seguros, que generosamente deu a um menino desconhecido algumas moedas na praça perto da loja de presentes e que embora estivesse logo atrás do senhor cinqüentão, não imaginava que tinha sido ele, que  poucas horas atrás havia desligado o celular em sua cara; finalmente, o rapaz que rejeitou o menino de rua e que ainda estava com o panfleto na mão, como se estivesse ainda na dúvida sobre se a sua compra seria ou não exitosa.
Todos passaram pelo caixa, inclusive a dona da loja no final, que pediu ajuda a um menino que estava escorado no poste em frente, o mesmo das moedas, para levar até seu carro os três carrinhos de presentes que levaria aquela noite pra casa. Deu também umas moedinhas ao menino que olhou pra ela e pediu que juntasse com o que tinha no bolso e lhe desse aquele carrinho especial, marronzinho, de plástico e que olhou pra ele pela vitrine durante todo o mês. Foi prontamente atendido e saiu correndo, feliz da vida para casa.
Esbarrou em dois senhores que conversavam em um canto da esquina, fazendo com que seu brinquedo caísse no chão. Após alguns palavrões proferidos dos dois lados - há de se convir, nada conveniente com a época - os homens continuaram sua conversa sobre negócios, planejamento financeiro familiar, orçamento doméstico e consumismo. Ambos não estavam interessados nessa história de compras de fogos de artifício, de presentes de amigo secreto, alimentação especial para ceia, etc. Achavam isso uma grande bobagem, tão somente uma busca do comércio para garantir uma maior lucratividade em cima da carência intelectual do povo. Criticavam as mulheres que queriam gastar um pouco mais este mês dando baby liss nos cabelos para as muitas comemorações que ainda viriam, além de uma série de outras compras urgentes e absolutamente desnecessárias. Preferiram durante todo aquele dia, ao invés de irem pra perto de suas famílias, discutir um pouco mais sobre a ingenuidade das pessoas que costumam atender prontamente os apelos do comércio durante as várias datas comemorativas do ano. Talvez até fosse uma boa idéia uma manifestação nas redes sociais contra os “gastos exorbitantes dessa pobre população manipulada pela mídia”, ou coisas do tipo. Para tanto, foram beber em um barzinho ali próximo, nada preocupados com a quantia que gastariam naquela noite, afinal, era réveillon, não era?

MUITO IMPORTANTE

           "De acordo com os dados mais recentes do DataSUS, do Ministério da Saúde, referentes a 2018, o País apresenta por dia ...

Pesquisar este blog