Sonhei
que caminhava certo dia por uma pauta. Isso mesmo, uma pauta musical! Nos
acordes das mais variadas canções dos anos 80 e 90 solfejava harmoniosamente
músicas que marcaram minha infância e adolescência, em cujas letras meus sonhos
mais puros eram embalados. Saltitava por sobre breves e semibreves e à medida
que o compasso das canções ia mudando, acompanhando o novo ritmo proposto pelos
mais diversos compositores de renome nacional e internacional, minha mente e
meu coração buscavam a mesma afinação...
As
situações, as pessoas, os relacionamentos, os fatos que marcaram a sociedade
brasileira de um passado não tão distante retratados em notas musicais! Pude
contemplar, admirado, cantores entoando notícias, revoltas e paixões, ouvi
verdades sendo ditas ao microfone, rimas ricas em claves de sol, descrevendo a
pobreza social e as mazelas de nosso povo. Percebi verdadeiras revoluções sendo
iniciadas do outro lado do “Dó, ré, mi”...
O
nível das músicas, a elegância das vozes, o sentido de cada letra dispostos
simbolicamente em cinco linhas representava uma realidade intelectual pouco
valorizada em nossos dias. A moral jamais desmoralizada através da “primeira arte”
e o preciosismo das divisões de vozes permeavam meus passos pela partitura do
tempo. Então comecei a cantar também. Da minha boca saíam apenas melodiosos “lá,
lá, lás”, como sinal de que essa linguagem perpassaria os umbrais temporais das
canções retrógradas, ao acordar.
De
repente, não mais que de repente LEPO! LEPO! Acordei e caí da cama. Um som
altíssimo do vizinho tocava músicas de procedência e de admiração duvidosas que me faziam
voltar à realidade pós moderna... “Mas que pena, eu acordei e já não estava
ali. E do sonho restou a canção que eu não mais esqueci: Lá, lá, lá...”



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