sexta-feira, 23 de novembro de 2012

UM CERTO JOAQUIM




   Ele nasceu em Paracatu, Minas Gerais, filho de um pedreiro e de uma dona de casa. Negro, sete irmãos, arrimo de família quando seus pais se separaram, sempre estudou em colégio público e com apenas 16 anos foi arrumar emprego sozinho em Brasília. 
   Esta poderia ser a biografia inicial de mais um pobre homem que por todas as dificuldades acima mencionadas não teria muito sucesso na vida. Vencer preconceitos, superar obstáculos naturais na luta por uma boa educação e um bom emprego eram desafios quase que intransponíveis para aquele mineiro da periferia, que como todo ser humano, aspirava dias melhores para ele e para a sua família. O segredo do seu sucesso na escalada para ser destaque nacional? Pensamento coletivo, coragem e determinação.
   Joaquim Benedito Barbosa Gomes obteve seu bacharelado em Direito na Universidade de Brasília, onde, em seguida, obteve seu mestrado em Direito do Estado. Prestou concurso público para procurador da República, e foi aprovado. Desde então só fez acumular iniciativas de sucesso e progressão profissional que destaca-se à medida em que sua fama toma conta do país. 
   Ao tornar-se o terceiro ministro negro do STF teve atuação relevante em diversos momentos de nossa recente história, com posições absolutamente distintas e desafiantes, opondo-se, inclusive, ao foro privilegiado para autoridades (Quem não lembra que foi dele a iniciativa em abrir processo contra o então deputado Ronaldo Cunha Lima, decisão considerada histórica, pois foi a primeira vez em que o STF abriu processo contra um parlamentar?).
   Em 2006 assumiu a relatoria da denúncia contra os acusados do mensalão, prometendo levar até as últimas conseqüências as denúncias feitas aos 40 réus do maior escândalo político brasileiro. Em 2012, ao completar 188 anos da criação do STF, um fato histórico vem marcando as decisões comandadas por ele: A condenação de um político, algo nunca antes visto no nosso país (Até parece que os primeiros políticos corruptos surgiram agora, quase dois séculos depois da criação do Supremo!).
   A Revista Veja escreveu: “O Brasil nunca teve um ministro como ele (…) No julgamento histórico em que o STF pôs os mensaleiros (e o governo e o PT) no banco dos réus, Joaquim Barbosa foi a estrela – ele, o negro que fala alemão, o mineiro que dança forró, o juiz que adora história e ternos de Los Angeles e Paris”. 
   Enfrentou inúmeras vezes seus colegas de bancada, defendendo suas idéias e concepções sobre como se deve dirigir processos legais em julgamentos, como na famosa discussão com o “colega” Gilmar Mendes: “Vossa Excelência está destruindo a justiça desse país. (…) Vossa Excelência não está na rua, Vossa Excelência está na mídia, destruindo a credibilidade do Judiciário brasileiro. (…) Vossa Excelência, quando se dirige a mim, não está falando com os seus capangas do Mato Grosso, ministro Gilmar.” Mendes se apressou em encerrar a sessão sem refutar nenhuma das acusações. 
    22 de novembro marca uma nova história na justiça brasileira. A integridade, a riqueza cultural, a quebra de preconceitos, a coragem e a ousadia do negro mais importante do país, na presidência do Supremo Tribunal Federal. Que sua trajetória à frente deste que é um dos três poderes no Brasil seja tão bem sucedida quanto a sua biografia.


- Fontes: O Globo / cenariomt.com.br / Revista Veja

terça-feira, 20 de novembro de 2012

TEMPO DE SER FÚTIL

    Alguns fatos que acontecem na vida são tão maravilhosos que não podem ficar escondidos no nosso coração ou na nossa mente. Diante disso, muitos de nós decidimos falar ao mundo de maneiras diferentes sobre esses fatos. Uns utilizam o telefone para fazer a divulgação, outros divulgam de maneira pessoal, e ainda outros fazem uso das redes sociais para mostrar ao mundo os motivos para tanta alegria e/ou felicidade. A grande questão é: E se os motivos que levam alguém a usufruir de tanta êxtase forem considerados fúteis pelos outros? Mas, afinal, o que é futilidade?

    Recorrendo (como sempre) ao dicionário, lemos que "Futilidade é algo de pouco valor, insignificante, ninharia, frivolidade". Pressupomos, então, que se algo pode ser considerado por alguém como sem valor, ou insignificante, não merece a "honra" da divulgação... Será mesmo?
    Vivemos em um mundo absolutamente preconceituoso, onde cada ato nosso é criteriosamente avaliado pelos outros. Quanto maior nossa relevância dentro de um determinado grupo social, maior nossa responsabilidade sobre o que falamos, comentamos, expomos e divulgamos. Vide exemplos: Você morreu de rir assistindo ao filme "Banzé no Oeste" em uma reprise da Sessão da Tarde; deliciou-se ao passar por um lugar que estava tocando a música "Ah, como eu amei" de Benito de Paula; chorou ao ver o esforço de uma pequenina formiga deficiente de uma das suas seis patinhas, carregando com dificuldade um saboroso pedaço de bolo; passou a tarde lendo a Bíblia e acabou encontrando respostas para seus questionamentos no Livro Sagrado...
    Tudo isso seria digno de fazer ecoar aos quatro ventos sobre como você está feliz, afinal, o que faz o mundo preto e branco ficar colorido são esses pequenos detalhes. Fazer comentários maldosos ou que discriminem o sujeito feliz pelo objeto da sua felicidade, apenas mostra o estado de mediocridade em que vivem certas pessoas que muitas vezes por quererem parecer inteligentes vivem a criticar os outros. Já dizia Marie Von Ebner Eschenbach "Somos tão fúteis que nos importamos mesmo com a opinião daqueles que não nos importam."
    A vida deve ser vivida com mais leveza, não com irresponsabilidade.  Parafraseando a passagem bíblica em que o sábio Salomão verseja sobre o tempo, eu diria que existe tempo pra tudo: Tempo de lutar pela moral e pelos bons costumes e tempo de deixar os outros lutarem um pouquinho também, tempo de ser inteligente e tempo de deixar-se levar pelo efêmero, tempo de criticar e tempo de desenvolver uma autocrítica honesta. Tempo de ouvir músicas eruditas e tempo de curtir um breguinha, tempo de assistir filmes intelectualmente dispostos na galeria dos melhores, como "Crianças Invisíveis" ou "Uma Mente Brilhante" e tempo de se emocionar como um adolescente assistindo "Amanhecer - Parte II"...
    Se evitar as futilidades tiver a ver com a negação de detalhes que dão prazer e que nos motivam a continuar vivendo, prefiro viver a futilidade a morrer na intelectualidade. E tenho dito.

sábado, 10 de novembro de 2012

PERFEITAMENTE INFIEL


_Prestou atenção no caminho até aqui? Ninguém te seguiu?
_Não, observei bem se vinha alguém atrás de mim.
_Tem certeza?
_Tenho, claro!
_Apagou a mensagem sobre o endereço pra chegar até aqui?
_De novo? Você repetiu isso um milhão de vezes! Não já disse que apaguei?
_É bom ser sempre prevenido... Minha mulher é muito esperta. Se ela nos descobre, estamos fritos!
_Deixa isso pra lá! Onde está o carro?
_Deixei no estacionamento do Shopping Center, perto das câmeras principais. Nós vamos ao motel de taxi.
_Certo, mas onde ele está?
_Já liguei pra central, daqui a dois minutos está chegando... Lembre-se: meu nome é Gustavo!
_(risos) Claro, claro! E o meu?
_Severina.
_Ah, não! O seu é bem bonito e o meu é horrível! Não quero não!
__Já tá decidido, Severina. Esse era o nome da minha saudosa bisavó... Uma espécie de homenagem, sabe?
_Minha nossa! Homenagem? Você é estranho, Alberto...
_Alberto não! Gustavo!
_Tá, tá. Gustavo. Mas não gostei do Severina!
_Com o tempo você se acostuma, além disso...
_Além disso o quê?
_O nome não é tão feio assim.
_Como assim, não é tão feio?
_Pior é essa peruca e você terá de usar...
_Oh, não! Que coisa triste! Vou ficar a cara de sua esposa!
_Deixa de história! Além do mais, minha esposa é linda!
_Ha, há, há! Até parece!
_Cadê esse taxi que não chega?
_Já deve estar chegando, querido, tenha calma...
_Você sabe que nosso tempo é cronometrado. Sim, aqui está o roteiro de nossa conversa no taxi, dá uma lidazinha rápida...
_O quê? Até o que vamos conversar dentro do taxi será falso?
_Com certeza! Apagar pistas é minha especialidade. Vou colocar agora meu bigode postiço e uma peruca que comprei em Madri no ano passado...
_Ai, que bom, lá vem o taxi!

***

_Foi bom pra você?
_Foi ótimo, só ficou um pouco estranho aquele: “Ai, Severina! Que gostoso, Severina!” Mas tudo bem.
_Você poderia utilizar isso como fetiche, numa próxima, quem sabe...
_(Risos) Você leva muito à sério essa história de traição perfeita, né?
_Certamente. Você não conhece a minha esposa. Não ignore essa olhada minuciosa de cada parte do meu corpo, não. Ela o fará também. De maneira discreta e sorrateira. Meus bolsos de calça, camisa e paletó serão vistoriados, sem nenhuma dúvida. O cheiro de cada peça de roupa que chegarei em casa usando será analisado com extremo cuidado e perícia. Nenhum fio de cabelo estranho poderá aparecer, tenho de reler sobre tudo o que disse que iria fazer hoje para não entrar em contradição, depois ainda precisarei tomar um banho para deixar que ela vasculhe cada centímetro de minha roupa para certificar-se de que não há possibilidades de traição... Ufa! É muita coisa pra mim, acho que não tenho mais idade pra isso!
_Como não? No que você se propõe a fazer, você faz com maestria... Como é mesmo o nome daquela posição?
_Olha Severina, está na hora de irmos embora. Outro dia a gente conversa mais.
_Tudo bem, tudo bem. Vou aguardar ansiosamente pela próxima vez... Meu gostosão!
_Não se aproxima! Já me livrei de cada evidência sua que podia estar em mim! Não estrague o que você fez tão bem. Nada de chupadas ou arranhões... Parabéns! Vamos embora?
_Vamos sim.

***

_Olá, querida! Beatriz está dormindo?
_Sim, está. Também pudera, esta hora, né?
_Como assim?
_Já são 20:35, percebeu?
_Sim, claro. Mas eu não disse que chegaria às vinte pras nove?
_Eu sei. Só estou falando que esta é a hora dela dormir...Como estava lá no shopping? Muito movimentado?
_Sim, bastante...
_Comprou o smartphone que você queria?
_Não, amor, procurei bastante em cada loja, mas não tinha nem da marca, nem do modelo que eu queria...
_Sim, sei... Você está com fome?
_Não. Comi no shopping...
_Trouxe o panfleto comercial da loja que te pedi?
_Trouxe sim, amor. Aqui está.
_Obrigada. Vamos deitar?
_Lógico, eu só preciso tomar um banho... Estou exausto. O shopping me deixa tão cansado.
_É mesmo. Vai, querido, eu te espero na cama.

***

_Meu amor, você me trairia algum dia?
_Como assim, Roberta? Eu te trair? Nunca, jamais! É mais fácil que você faça isso! Você não gostou do sexo? Foi isso?
_Não, Alberto. É que eu acho que não sobreviveria a isso. Você é tão perfeito e irrepreensível, o sonho de qualquer mulher...
_Deixa disso, Roberta. Vamos dormir que seu mal é sono! Boa noite.
_Boa noite... Ah, sim. Sua mãe ligou, disse que tentou falar com você, mas só dava na caixa de mensagens.
_Você não explicou pra ela que no shopping não dá sinal, que esse meu celular é uma droga e que por isso é que eu estou tentando comprar um novo?
_Sim, querido. Lógico que expliquei, mas você sabe como é a sua mãe quando não consegue falar com você.
_Sei sim. Amanhã eu ligo pra ela.
_Como sempre, né? Você sempre deixa pra depois...
_Meu amor, eu sou assim. Gosto de minhas coisas no meu tempo.
_Sim, sim. Como quando você vai para o shopping. Sempre a mesma horinha, com margem de erro de cinco minutos para mais ou para menos...
_Você está me chamando de previsível?
_Não. De organizado.
_Sim, porque se você quiser, eu posso ser o homem mais imprevisível e desorganizado deste mundo!
_Não, meu amor, está ótimo assim. Não precisa ficar com raiva!
_Tudo bem. Vamos dormir que estou muito cansado...
_Boa noite.
_Boa noite.

Ele pensou: ”Como eu sou esperto! Com minha organização e previsibilidade poderei manter meus casos extraconjugais pra sempre e ela nunca vai perceber!”
Ela pensou: “Como eu sou esperta! Com a organização e previsibilidade dele poderei manter meus casos extraconjugais pra sempre e ele nunca vai perceber!”

E dormiram infielmente felizes...

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

ÚLTIMAS PALAVRAS



_O que você está fazendo aqui? 


_Vim te buscar... 

_Mas eu ainda sou tão jovem! 

_Eu sei, eu sei. Com 74 anos o senhor ainda está na flor da idade, mas fazer o quê, né? 

_Não tem nem como a gente protelar um pouquinho...? 

_Não tem, infelizmente... 

_Tenha piedade, por favor! 

_Claro, claro. Eu tenho. E responsabilidade também. 

_Se não existe meio de escape pra mim, qual a razão desse diálogo? 

Silêncio sepulcral. 

_Vamos partir? 

_Mas eu ainda nem tive tempo de me despedir dos meus parentes... 

_É esse o sentido da viagem final. Não se despedir, pra que os que ficarem possam refletir sobre o que fizeram ou deixaram de fazer por e para você. 

_Por que alguns tem essa oportunidade e outros não? 

_Por que alguns aceitam a idéia sem questionar e outros não? 

Fúnebre silêncio. 

_Enfim, vamos partir? 

_Existem alternativas? 

_Não. 

_Então por que me pergunta algo que você já sabe a resposta e que não poderá atender? 

_Pra não fazê-lo partir de surpresa. 

_Só me diz uma coisa: Pra onde eu vou? 

_Que diferença faz? A vida é uma só, mas as teorias existentes sobre a morte são tantas... 

_É muito importante pra mim saber qual o caminho que eu vou seguir após a morte! 

_O que diz a sua religião? 

_Eu não tenho religião. 

_Então você não faz idéia do que o espera do outro lado? 

_Não, não faço idéia... 

_Então pra quê temer? 

_É o medo do desconhecido, você entende, né? 

_Não, não entendo... Analise comigo: Você nasceu em uma época distante, cresceu em um ambiente completamente diferente do atual, teve sensações despertadas por um mundo de paixões completamente diferentes das atualmente experimentadas pela juventude do século XXI, amadureceu em um tempo de transformações sociais que moldaram seu caráter e suas atitudes diante das adversidades, ganhou dinheiro com empreendimentos de sucesso, perdeu dinheiro com alternativas fracassadas de ganhar mais, amou e foi amado, odiou e foi odiado, perseguiu e foi perseguido, foi justo em decisões difíceis e injusto em decisões fáceis, foi homenageado em vários momentos pelos muitos serviços prestados e questionado por não ter agido quando mais precisavam de você. Deu muitas alegrias a senhoritas na cama e decepcionou a outras, com a célebre frase:”Isso nunca me aconteceu antes!”. Foi pai herói e pai bandido, bom vizinho, péssima companhia, beneficiou a muitos com sua presença e aliviou a outros com sua ausência, foi correto em caminhos tortos e torto em caminhos corretos. Acima de tudo isso, o que quero enfatizar é que as situações vividas dia após dia justificaram um bom, longo e próspero viver, valorizando no desconhecido, um mundo de possibilidades! Um novo mundo de possibilidades agora o aguarda. Pode ser um recomeço ou um final glorioso, mas o seu momento chegou... 

_Tudo bem, tudo bem... Você venceu. Aliás, você sempre vence, né? Já que de qualquer forma “cumpri minha sentença e hei de encontrar-me com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre.” Posso dizer pelo menos minhas últimas palavras? 

_Fique à vontade. 

_Eu não tenho 74 anos, mas 75... Você errou! Há, há! 

_Como assim? Você não nasceu em 1938? 

_Não, nasci em 1937. 

_Seu nome não é Severino Andrade Barbosa Filho? 

_Não. É Altamir Pereira de Vasconcelos. 

_Nossa! Desculpe, senhor, mas foi engano... Eu deveria estar conversando com outra pessoa, em outro leito! 

_E agora? 

_Siga sua vida, ainda lhe resta um bom tempo pela frente! 

Sumiu. Severino pensou, sorrindo:

_Faltava ainda no meu currículo: “Enganou até a própria morte”! Há, há, há!

MUITO IMPORTANTE

           "De acordo com os dados mais recentes do DataSUS, do Ministério da Saúde, referentes a 2018, o País apresenta por dia ...

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