Não há o que comemorar. O contexto é de luto. O retrato que vemos hoje revela, mas não ineditamente, o quanto nossa política está comprometida e pautada por muitos valores que não correspondem ao Estado Democrático de Direito. Manipulações em consonância aos interesses pessoais. Não há nada de novo sob o sol. No entanto, eis um cenário onde não cabe espanto: o caos que vivemos se prenuncia desde o pleito eleitoral, estava posto e claro. Pensaram com o fígado e continuamos padecendo. É hora da tomada de consciência e da responsabilidade na construção do cenário que temos hoje. Será que voltamos à pauta da autocrítica?
Elegeram um candidato sem propostas, que vociferava raivosamente e, somente assim, deu vazão a um sem-fim de sentimentos represados que se materializou exclusivamente na oposição a um partido. Esqueceram que os problemas que há muito enfrentamos não podem ser explicados por siglas ou símbolos. São de ordem conjuntural, a história mostra. Em política, mais do que preferências, discute-se projetos. E, reitero, o projeto que se estabelece hoje se anunciou ontem.
Do meu lugar de fé e fala, meu espanto aumenta quando olho a Igreja Evangélica Brasileira, que negociando sua identidade, cedeu o espaço do Evangelho de Cristo à uma bandeira humana. O apoio institucional, irrestrito e acrítico ao, até então, presidente lançou na conta dos protestantes um preço alto, um dia será cobrado. Que Deus tenha misericórdia!
Continuamos com uma igreja confusa de quem a chamou e para que a chamou e, agora, se debate para justificar os rumos que seu posicionamento toma diante do caos que está posto. A igreja milita e luta com a verdade, não há espaço para outra coisa senão a verdade, aquela que, conhecida, liberta, lembra?
Vista-se de panos de saco e cinzas, dobrem os joelhos! Largue o bezerro de ouro, voltem seus olhos ao verdadeiro Messias: infalível, incorruptível e justo! A hora de clamar por misericórdia se faz urgente, mais do que quando as campanhas eclesiásticas levantavam uma bandeira partidária e um candidato.
Que entendam esta crise como a oportunidade de ajustar o foco. É inevitável lembrar de Stott quando pontua que “num mundo caído, nenhum programa político pode reivindicar ser a expressão da vontade de Deus”, a expressão da vontade do Senhor está em Cristo e este, por sua vez, é o firme fundamento da Igreja, ninguém mais. Não há outra causa. Não há outro Messias!
Que a essência do verdadeiro Evangelho seja retomada, que os valores de Cristo ecoem no coração, na mente e nas decisões; que o conhecimento profundo da Sua Palavra ajude a discernir que Mateus 5 vem antes de Marx. Encerro com o alerta de Stott “os cristãos devem ter o cuidado de não batizar qualquer ideologia política (de direita, de esquerda ou de centro) como se ela detivesse um monopólio de verdade e bondade”.
E, por fim, que tudo isso conduza a Igreja a se reencontrar com Cristo, seu alicerce!
(Por: Camila Matos)




