Era um casal que servia de modelo de fidelidade e amor para todos os que os observavam. O marido tinha uma conduta social absolutamente inquestionável. A esposa primava pelos bons costumes que herdara da família. Certo dia, munida de uma desconfiança típica das mulheres que não possuem motivos para tal, decidiu ratificar sua certeza da lealdade do marido analisando o histórico de navegação, no computador pessoal dele. Foi terrível. Descobertas absolutamente desconcertantes mudaram sua forma de ver o mundo. Aliás, destruiu o mundo que construíra anos antes, quando disse o primeiro sim para o início do namoro, mais um sim pra primeira noite de prazer e de perda da inocência com ele. Depois veio o sim do altar... Nesse momento, o que mais lhe chamava a atenção era o fato de não se recordar de "nãos" oferecidos ao amor de sua vida!
Encontrou em sua sorrateira "bisbilhotice por uma boa causa" - como de maneira constante repetia mentalmente - visitas em sites que ensinavam como se separar da esposa sem passar pelo litígio, de quanto seria a pensão alimentícia em caso de divórcio, guarda compartilhada, alienação parental, etc.
Chorou. Chorou muito. Passou a noite toda tendo pesadelos, mas o maior deles estava por vir na manhã seguinte, quando percebeu que não estava sonhando. Era verdade tudo o que tinha visto naquele PC...
O marido saiu pra trabalhar como de costume, deu um beijo nas crianças e na mulher, que friamente não o retribuiu. Embora parecesse estranha aquela situação, o homem decidiu não questionar, afinal, a frieza e a irritabilidade sempre foram características peculiares de sua esposa em determinados dias do mês e a melhor atitude sempre foi guardar uma certa distância, mais um dos segredos da longevidade do casal!
Após alguns dias, quando já não mais podia esconder sua amargura, a mulher tomou coragem e decidiu pôr fim ao relacionamento antes dele, para não ficar o estigma de "rejeitada". Anunciou após o jantar o desejo de separar-se do marido, ao som de "So young" do The Corrs. Ele aparentava não acreditar que aquilo pudesse estar acontecendo. Questionou exaustivamente o motivo de tal atitude, mas foi em vão.
Quando estava na casa da mãe para dormir depois de tantos anos, escutou o conselho matriarcal que tanto norteou seus passos, mas que trazia na frase um tanto quanto clichê, uma convicção descontextualizada, segundo o rapaz:
_ Você devia ter dado mais atenção a sua mulher! Se você tivesse sido mais atencioso, isso não teria acontecido!
_ Como assim, mãe? Eu sempre fiz tudo por ela! Na realidade até agora eu não sei o que aconteceu!
_ Acredito que ela só pediu o divórcio por culpa sua! _ A mãe não se conteve_ Não é de hoje que ela reclama que você passa muito tempo na frente do computador! Tem hora que parece que você ama mais o seu blog do que ela, na minha opinião!
_Será mesmo, mãe?" _ Passou a refletir serenamente.
Realmente tinha sentido o que a mãe dizia. Mãe sempre tem razão! Na última noite feliz naquele lar, ele estava exatamente "alimentando" o seu blog. Escrevia, a pedido de um amigo, um texto cujo tema coincidentemente era "Separação conjugal"
Coitado! Havia Pesquisado tanto sobre o assunto, que esquecera de beijá-la naquela noite...