Meus
olhos parecem não acreditar no que estão vendo. Olho para o lado e vejo uma
criança chorando, envolta em uma bandeira; olho para o outro e vejo,
boquiabertos, vários homens, estáticos e melancólicos, cena contrastante com a
proposta do lugar e do espetáculo; busco nessa hora respostas pra tantas
perguntas, mas curiosamente não as encontro. Aquela inesperada situação vivida
em um ambiente, minutos antes, estimulante e festivo, parece tão surreal que as
palavras não conseguem sair de minha boca...
Após
alguns instantes de anestesiante dor e surpresa, meus ouvidos começam a funcionar
e os gritos de choro, palavrões e acusações dominam o espaço em que me encontro.
Não sei se choro, se me uno aos que bradam pela morte da líder máxima do meu
país, se xingo a progenitora dos protagonistas da desgraça alheia ou se
participo do silêncio gritante dos protestos, cujas lágrimas abundantes são o
principal estandarte da revolta nunca antes sentida.
Começo
a ter lapsos de consciência e a perceber que neste dia estou participando de um
momento histórico. Infelizmente, preciso entender que nem sempre isso é bom ou
estimulante, entretanto, impreterivelmente me levará a reflexões profundas
sobre o mesmo. A primeira reflexão que me vem à mente é que eu não tenho sete
motivos pra desistir da minha paixão pelo futebol ou pela seleção brasileira,
mas 31 motivos para crer que a frustração e a tristeza são muito mais comuns em
um torneio como a copa do mundo, do que a glória e o prazer, afinal, são 32
seleções lutando pela realização de um mesmo sonho!
Volto
para casa em meio a brados retumbantes de indignação e revolta, ouvindo
buzinaços de raiva, vendo homens descontrolados queimando camisas e bandeiras
amarelas, outros quebrando o que veem pela frente. Chego na minha rua e me
deparo com a vizinhança arrancando bandeirinhas presas nos carros, nos postes e
antenas de tv, mulheres jogando água nas pinturas das calçadas e alguns jovens
sentados no meio fio como se tivessem perdido um ente querido. Com um olhar de
soslaio verifico que nem todos demonstram descontentamento, existem algumas
pessoas que nas suas rodas de conversa utilizam em cada início de frase
expressões do tipo: “Eu sabia!”, ou “Achei foi bom!”. Um misto de emoções
prepondera naquele cenário que há poucas horas era de intensa festa e alegria.
Ninguém
espera ser humilhado ou sair derrotado de nada na vida, mas assim é o decurso
de nossa existência. São muitas portas batidas na cara, muitos “nãos”, tantos
gritos de “ais” que deveríamos estar acostumados ao infortúnio, mas a verdade é
que nenhum de nós nasceu pra perder e quando isso acontece em nossa casa e da
maneira como aconteceu parece que o fundo do poço chegou. O problema é que o
poço da angústia e do fracasso não tem fundo. Ele sempre nos diz que algo que
está ruim sempre pode piorar...
Diante
de uma copa sem grandes problemas, repleta de emoções, de grandes lances, de
gols belíssimos, de imagens de encher os olhos, de confraternização mundial
acontecendo em nosso país, só conseguimos nessa hora enxergar a decepção originada
por uma saraivada de gols em uma partida de futebol. Pior que isso é começar a
misturar as coisas e passar a colocar em campo partidos políticos, religiões,
teorias tresloucadas de conspiração, talvez para que sejam encontradas
explicações plausíveis para a maior catástrofe do futebol brasileiro em todos
os tempos!
Devemos
ter orgulho de nosso país sim! Pelo simples fato de que ele não pode ser
resumido a política, futebol ou samba. Ele é muito mais que isso. As lágrimas
derramadas na derrota esportiva são válidas sim! O rosto pintado em homenagem à
seleção é válido sim! As bandeiras espalhadas pela casa, a camisa verde e
amarela vestida com orgulho, o barulho dos brinquedos (irritantes, diga-se de
passagem), o som das músicas antigas e novas em alusão ao sonho do título, tudo
isso é válido sim!
Pessoas
que reclamam da situação do nosso país no tocante a saúde caótica devem buscar
meios para solucionar o problema em rodas de conversa, focando no alvo. Quem
discute a corrupção no Brasil deveria deixar de ser primeiro, quem fala mal de
governantes deveria lembrar pelo menos em quem votou nas eleições passadas,
quem diz que a educação vai de mal a pior deveria conhecer mais de perto a
realidade das escolas a partir do acompanhamento aos filhos que estudam nelas.
Tentar
resolver problemas sérios de infraestrutura, de saneamento básico, de segurança
pública, ou de qualquer outra ordem, xingando, gritando, postando ou
blasfemando, de forma alguma resolverá o problema. Apenas mostrará nossa
incompetência para assumir que ainda precisamos amar nosso país, antes de
partirmos pra luta por uma sociedade mais justa, cumpridora dos deveres e
fiscalizadora dos gastos públicos. Criticar é fácil, argumentar é fácil,
apontar é fácil, xingar é fácil. Difícil é amar! Quem ama cuida! Não estimula a
anarquia, o quebra-quebra, não vê governante em tudo o que acontece de errado
na nação, antes, se vê, porque quem faz o país somos nós, quem os coloca no
poder somos nós. Tudo o que acontece são nossas mazelas, nossa ineficácia,
nossa corrupção, nosso problema. Só assim começaremos a mudar nossa história.
Para melhor.
Na
esfera futebolística, fortes debates podem e devem fazer parte de qualquer partida,
ainda que vexaminosa. Ser o país do futebol é apenas um título que professamos
ter, mas que em momentos de dor como esse na copa, pode e deve ser repensado
para que nossa autoestima volte a crescer. Simples assim.
Na
esfera política, fortes debates podem e devem fazer parte de qualquer momento
político, ainda que estejamos em situação vexaminosa no panorama mundial. Ser
um país democrático e socialmente justo não deve ser comparado a um título
esportivo, porque ele vem e vai ao sabor do vento (quem não lembra do penta
conquistado justamente em cima dos alemães em 2002?). Neste caso não é a nossa autoestima
que deve ser levada em consideração, mas a nossa qualidade de vida. Os alemães,
assim como os holandeses, os italianos, os franceses e os ingleses orgulham-se
do seu país, independente do futebol. Por que não aprendemos com eles, afinal,
temos ou não mais motivos para sermos felizes?
Nesta
esfera, felizmente, ao contrário do que muitos pensam, o jogo ainda não acabou.
A goleada ainda pode acontecer em nosso favor...

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