quinta-feira, 11 de agosto de 2016

LÁGRIMAS...

       
       Aos três anos, ela rompe a madrugada com um forte grito e corre até meu quarto, abraçando meus pés descobertos... Uma vez molhados pelo seu pranto infantil, desperto assustado para ouvir de sua angústia por ter tido um pesadelo: Seu brinquedo tão estimado, estava quebrado! Nossa noite verdadeiramente se torna uma criança!


      Aos sete, ela me acorda desta vez num rompante de angústia por sonhar com um ladrão entrando em nossa casa. O consolo paterno em meio a sons ébrios  - emitidos com dificuldade devido ao sono dos múltiplos trabalhos - ecoa no meu quarto, mais uma vez...

      Aos dez, após o labor cotidiano, a encontro novamente em lágrimas, deitada de bruços na cama, no fim do dia. O motivo está em suas mãos... Nota baixa impressa com letras garrafais e avermelhadas de Bic, em uma recente prova de matemática. Limpo seu rosto com palavras de incentivo e com demonstração de que o apoio será mais intenso de minha parte doravante, embora não tenha a mínima ideia de como calcular 7a + 7 = 4a + 19!

     Aos 15 anos, após uma discussão despretensiosamente ouvida por mim enquanto meu ouvido permanecia colado a porta que nos separava, vou ao seu encontro para dar-lhe um abraço e ao limpar as suas lágrimas, explico que aquela era apenas a primeira de tantas outras desilusões que ainda surgiriam em sua vida amorosa... Mais lágrimas! Acho que disse algo que não deveria!

     Aos 18, reluto a princípio em limpar-lhe o rosto dos rios que correm abundantemente dos seus olhos, mas tento lembrar do meu passado também e, complacente, explico-lhe que o sexo deve ser feito com a pessoa certa, no momento certo e da forma certa, mas nem sempre a carne suporta as tentações e nos entregamos aos seus desejos, mesmo com a pessoa errada, na hora errada e da forma errada... o bom disso tudo é que muitas vezes temos uma segunda chance de fazermos diferente. E pode ser muito mais prazeroso! Não preciso dizer o quanto foi difícil pra mim dizer tudo isso... 

      Aos 22 anos, seu choro é de dúvida se o seu iminente enlace será ou não bem sucedido... Faço com que ela reflita comigo sobre os altos e baixos do meu casamento e sobre a felicidade que impera em nosso lar, independente disso. Segredos para a manutenção segura dos sentimentos e para a ampliação da cumplicidade são finalmente revelados a ela... Um terno sorriso brilha no canto de sua boquinha, prestes a ratificar com um "sim", todo o seu amor pelo noivo...

     Aos 25, choramos juntos ao decifrarmos os segredos presentes na expressão "positivo" em um exame de sangue feito por ela. O milagre do existir mais uma vez se apresentou no seio de nossa família! Mais uma criancinha voltará a correr nos corredores de minha casa!

       Aos 35, ela chora ao saber da doença com a qual terei de me relacionar até o dia em que dará cabo de minha vida, impreterivelmente... Consolo-a falando do nosso "triste destino sobre a terra", do quanto minha vida tinha sido boa, de quantos bons momentos vivemos juntos e do quanto ainda viveremos, mas em outro plano. Novas lágrimas, nova sensação de que falhei de novo na tentativa de represar sentimentos dolorosos liquefeitos, oriundos de seu olhar de mulher madura, mas que não aprendeu a conviver com a ideia da morte...

     Aos 41, seu choro finalmente não terá mais minhas mãos a tocar-lhe o rosto, minha voz a embalar seus passos nas adversidades, meu beijo benevolente de aceitação da sua pessoa, em detrimento de seus atos errados... 

     Suas lágrimas copiosas a partir de agora só cessarão, se cada ato meu for lembrado com carinho, se ao final de cada memória do que vivemos provocar-lhe a certeza de que enquanto eu interferia nos rumos de sua vida, marcas de amor que o tempo jamais apagará foram gravadas de maneira indelével em seu coração. E assim, cada pingo nostálgico de lágrima derramada lhe dará a certeza de que eu serei para sempre... seu pai... 

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