O que é a dor?
A dor é uma sensação tão indescritível quanto profunda.
A dor física é apenas a observação latente do cérebro de que algo desagradável aconteceu em alguma parte do corpo.
Qualquer parte.
Interna ou externa.
Quando, entretanto, ocorre a dor da alma, não existem palavras em qualquer vocabulário moderno ou retrógrado, erudito ou coloquial, regional ou universal que possa defini-la.
A constância, a intensidade, e a frieza com que ela se aloja no peito leva o doente a sentir medo da vida, medo de sorrir, medo de ver os ponteiros do relógio desenvolverem seus sepulcrais movimentos de prosseguimento e de continuidade aparentemente sem fim.
Nossos passos retrocedem, nossas buscas por respostas se tornam mais agressivas, perdemos noção dos porquês, constatamos que as lágrimas exteriorizadas nada mais são do que uma ínfima demonstração de que o estrago é bem maior do que parece ser.
O prazer sem limites da presença dá lugar a melancolia ilimitada da ausência, o ermo que se forma no coração leva a vida ao esmo, a falta de propósito torna o caminhar apenas uma mera repetição de gestos e atitudes sem essência e consequentemente sem esmero.
O vácuo preenche cada espaço, a negritude vislumbrada ao longe torna-se o único refúgio para quem já não tem motivos para ver as cores e formas, ouvir sons e vozes, sentir toques e afagos...
O futuro, o ano-novo, as promessas, idealizações, aspirações e desejos perdem razão de tal maneira que até a razão desconhece.
Resta-nos apenas a esperança de que um dia essa dor vai passar, quando o calor do corpo já tão sem sentido desvanecer, quando o único lugar verdadeiramente nosso for ocupado, quando a própria dor deixar de ser a causa para se tornar o efeito.

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