quarta-feira, 19 de junho de 2013

A BATALHA


_E aí, está pronto?
_Com certeza!
_Já está equipado com tudo o que precisaremos?
_Se não estivesse você acha que eu iria me aventurar nessa missão?
_É verdade...
_Agora me diz uma coisa capitão... Existe possibilidade da gente não utilizar nosso armamento?
_De forma alguma!
_Por que? E se o protesto for pacífico?
_Pacífico? Onde já se viu? Se tiverem cartazes que contradigam interesses de líderes do governo, bonecos ironizando políticos, ou frases de efeito que incitem o povo a pensar, já serão motivos mais que suficientes para agirmos e agirmos com força!
_Tá, mas se não quebrarem nada, não picharem, não sujarem, o que a gente faz?
_Meu amigo, você é muito despreparado mesmo. Basta dar um tirinho que a multidão se revolta e parte para a pancadaria e pedradas, então estarão em nossas mãos! Utilizaremos além das balas de borracha, bombas de efeito moral...
_E se tiverem como evitar os efeitos das bombas usando, por exemplo, vinagre?
_Repressão, meu caro! A gente prende cada um dos que estiverem usando o vinagre!
_Baseado em que lei?
_Lei? Há, há, há! Nós somos a lei, rapaz! Depois de levá-los presos a gente cria qualquer coisa que a mídia trata de divulgar depois!
_Bem, se é assim, vamos lá... Espera um pouco... e se eles continuarem com a manifestação, mesmo em meio a tiros, bombas e prisões?
_Já pensei nisso também, colega! Nós quebramos nossas próprias viaturas e colocamos a culpa nos manifestantes. Dessa forma, com o apoio da mídia, que sempre se “sensibiliza” com ações de vândalos contra a força policial, teremos respaldo do povo que acompanhará os confrontos pela TV e consequentemente repudiará as ações desses jovens “delinqüentes”! Sou ou não sou esperto?
_Bastante! Mas e nossos filhos, parentes e amigos que estarão do outro lado?
_Eu já falei com os meus para não se envolverem nisso. Você deve fazer o mesmo.
_Ainda não entendi porque deveríamos agir assim se uma mudança na qualidade dos transportes públicos e no preço das passagens só traria benefícios para todos? Não deveria ser esse o ideal das forças armadas de uma maneira geral?
_Sim, claro. Mas nós estamos presos a um sistema que não admite a saída da letargia, nem tampouco o fim da inércia no nosso país. Nosso trabalho é a manutenção do que se vê por aí ao longo de décadas de exploração e de subserviência, ou seja, poucos com tanto pra viver e muitos com tão pouco pra sobreviver...
_Engraçado, eu pensei que a manutenção da lei e da ordem fosse nosso maior compromisso...
_Esqueceu que tanto a educação, quanto a saúde, além da própria segurança pública  estão um caos no Brasil?
_É verdade. Mas acho que diante de tudo isso nós poderíamos agir diferente. Quem sabe as coisas não melhorassem inclusive para nós?
_ Olha, você está de fora dessa missão! Suas idéias e questionamentos são muito reacionários! A luta aqui é por 20 centavos e você já está divagando por outras questões sociais! Ora, faça-me o favor! Você acha que esse povo burro e sem ação vai querer, após os confrontos que estão se desenhando para logo mais, sair novamente às ruas para protestar por alguma outra coisa? São 20 anos que passaram parados desde os famosos “caras-pintadas”! Daqui a pouco você vai contemplar novamente o silêncio das massas e a volta a rotina...
_O senhor pode estar certo, mesmo. Hoje haverá de ser um dia comum. Ninguém nem lembrará mais desse dia no futuro, né?
_Com certeza! Quer me acompanhar, então?
_Por via das dúvidas, acho melhor cumprir sua última ordem de ficar aqui... Sei lá, as vezes é melhor pensar como o grande filósofo Michel Foucault: “ O discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo porque, pelo que se luta, o poder do qual nos queremos apoderar.”
_Ih, você agora começou a falar difícil, não me admiraria se um dia você estivesse no meio de uma multidão de manifestantes e ao ser pedido, você sentasse no chão em homenagem a eles...Fica aí mesmo. Lugar de quem não quer batalhar é sentado numa fria cadeira, assistindo TV...
_Acho o seguinte, capitão: “Aqueles que não criam o futuro que querem, devem agüentar o futuro que recebem” já dizia Draper Kaufman Jr. Você acha que depois de hoje o Brasil continuará “deitado eternamente em berço esplêndido”?
_ (Reflexivo) E você acha que esse povo vai despertar o gigante adormecido?

_Sinceramente, não. Mas às vezes o povo só quer um tema pra viver, um ideal pra alcançar e coragem pra vencer...

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