Tente
lembrar como era o gostinho da infância. Associe agora com o prazer de tomar um
belo banho de chuva, correndo pelo quintal de sua casa, ou pela liberdade de um
sítio. Bom né? Recorde as brincadeiras infantis, com ou sem malícia, a descoberta
do próprio corpo e da sexualidade, pense na primeira paixão, no primeiro toque,
no primeiro beijo, nas primeiras carícias... Agora reflita sobre como foi ter
de pela primeira vez “se virar” para ganhar dinheiro, imagine as dificuldades
naturais de tomar decisões sozinho, de entender que a vida adulta enfim chegou,
trazendo consigo todo o entendimento das nítidas mazelas que nos cercava desde
sempre, mas que devido ao poderoso bloqueio da visão infantil para o que não
traz felicidade, não percebíamos.
É
gostoso relembrar músicas, amores e conquistas da juventude quando se está na
meia idade.É bom saber que fizemos alguma coisa de útil para nós mesmos e para
a sociedade na flor da idade. É quase que uma certificação de que não apenas passamos
pelo mundo, mas alteramos um pouco da
sua história com nossos discursos, nossas idéias e ações. Quando se trata de
discurso, “O discurso não é simplesmente
aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo porque, pelo
que se luta, o poder do qual nos queremos apoderar.” (Michel Foucault), ou seja, é algo muito
mais profundo e ideológico. Ao tratar de idéias, tornamo-nos eternos, pois o
que pensamos e colocamos à disposição da humanidade para apreciação e/ou
fundamentação perpassa os umbrais do tempo e cauteriza modificações para além
de nosso tempo. E quanto as ações, vale salientar que “As idéias não colocadas em prática
inibem nosso desenvolvimento, que se definha aos poucos nos levando á inércia
do comodismo, pela decepção da não concepção.” (Ivan Teorilang).
Na
terceira/melhor/pior idade tradicionalmente as pessoas passam a maior parte do
seu tempo relembrando os bons momentos vividos. Interessante que os de maior
relevância na construção da maturidade –
os maus momentos – quase sempre são por aqueles preteridos. Parece que as
conquistas, os prazeres e os sabores ficaram para trás e já não importam mais,
exceto no campo dos sonhos. O que resta, além das lembranças, são as palavras
de orientação, indignação, instrução e o repasse quase sempre sem muita
aceitação por parte dos mais jovens, de conselhos sobre a vida.
O que realmente
importa ao final de tudo não é exatamente o que fizemos da nossa curta viagem
pela vida ou ainda como colocamos em prática nossos planos e projetos, mas com
quem estivemos durante todo esse tempo... Onde está a chuva do passado? Onde
estão as brincadeiras da infância? Onde estão as músicas, os amores, as idéias
e as paixões da juventude? Onde estão as pessoas que compartilharam com você
dos seus anos mais promissores? Elas estão aí do seu lado, vovô, ou vovó?

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