Olá, mãe! Quero te contar um pouco da minha experiência ao retornar a nossa cidade trinta anos depois. A senhora não a reconheceria!
Quando acordo de manhã, olho da janela do quarto de um pequeno, mas elegante e fino hotel, no qual estou hospedado e percebo que a sensação de bem estar e prazer não estão relacionados apenas aos recursos tecnológicos que disponho em meu temporário lar, mas ao que observo além dele.
De volta a minha terra natal após tantos anos, não posso deixar de contemplar as profundas mudanças que ocorreram nessas quase três décadas morando longe. São centenas de prédios a perder de vista, pistas largas, viadutos, metrôs luxuosos, logo se vê que tudo foi planejado com muito bom gosto e sofisticação.
Que cidade tão linda! Paisagens marcantes, frutos da arquitetura moderna. São tantos casarões que quase me perco em minha própria rua! Basta olhar em volta no fim dela e o luxo do lugar é facilmente percebido através dos maravilhosos restaurantes e das lojas suntuosas que nos estimulam naturalmente a comprar e comprar, ainda que nem precisemos dos artigos vendidos... O shopping Center daqui é quase uma cidade de tão grande. Tem até pista de esqui com direito a neve!
Pra chegar até a casa em que vivi boa parte da minha infância precisei passar por alguns palácios residenciais construídos com a mais alta tecnologia. Não existem carros nacionais por aqui, só importados! As ruas são impecavelmente limpas, não se escuta sons barulhentos pois tudo é controlado rigorosamente por aparelhos instalados em vários cantos da cidade que medem o nível de decibéis de absolutamente tudo!
No lugar em que vivemos a melhor época de nossas vidas construíram um gigantesco museu, que pra entrar, tem de se cadastrar e esperar o dia agendado para a sua visita. No meu último dia por aqui pude entrar no museu e logo constatei que as mudanças foram muito mais severas do que eu imaginava.
Nada era tão belo quanto o que se percebe hoje por aqui. Só se via lagos, plantas e animais por toda parte; pinheiros, árvores de eucalipto dos dois lados da estrada de terra, os jardins de Dona Cotinha tomavam conta de boa parte do percurso que levávamos da mercearia de Seu Bento até a nossa casa. A escolinha onde estudei era cercada por um matagal imenso, corríamos das vacas e cabras que teimavam em ocupar esses espaços, as crianças e os adultos só andavam de bicicleta ou de carro de burro, tomávamos águas de cacimbas ou de poços artesianos, não tínhamos celulares, tablets ou afins; pra conversarmos com as pessoas só por meio de cartas ou nas reuniões ao redor de uma fogueira ao anoitecer; nosso meio de informação era um radinho de pilha e até o campinho de futebol no qual fiz inúmeros gols deixou de ser uma realidade nessa renovada cidade.
Enfim, mãe, a tecnologia dos dias atuais ocupou o espaço das irrelevantes campinas em que passeávamos. Não existem mais áreas de plantação, os animais que serviam de companhia, serviço ou alimento sumiram e até a velha capelinha em que a senhora casou com meu pai deu lugar a um gigantesco monumento a fé, com romeiros chegando de toda parte do país!
As coisas mudam e com elas nossos sonhos, devaneios e ideologias... Só fico me perguntando: Quais as ideologias da sociedade atual? Quais os seus sonhos? Seus objetivos? Suas esperanças? Quando o último pingo da cor verde se for, que cor tomará o seu lugar? Pois é...
Beijo, mãe. Câmbio, desligo.

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