terça-feira, 21 de novembro de 2017

DE UMA SENZALA A OUTRA



Ao Brasil, a gente negra
Foi trazida traficada;
Como se não fosse gente,
Foi aqui escravizada.
Obrigada a trabalhar
Para o branco desfrutar
Da riqueza produzida...
Subjugada ao senhor,
No chicote do feitor
Sua honra foi ferida.

Trabalhou de sol a sol;
Doeu, sofreu e sangrou...
Da formosura das jovens
O senhor branco abusou!
Algum fugiu para o mato,
Com o Capitão do Mato
Colado em seu calcanhar...
Subiu o monte e a serra,
Foi habitar uma terra
Difícil de se alcançar!

Mato a dentro e serra acima,
Foi o caminho da vez!
Nas brenhas impenetráveis
Foi que Palmares se fez!
Na liberdade escondida
Negro ganhou nova vida
Que não teve longa sorte...
O Brasil branco, de novo,
Chicoteia o negro povo
Levou o quilombo à morte!

Enquanto isto, na senzala,
Quem ficou se inquietava;
Entre dor e sofrimento,
Algum já se revoltava...
Um batuque, uma dancinha,
Treinada sempre à noitinha,
Entoada ao berimbau...
Ginga virou capoeira
E a gente negra guerreira
Fez dela arma fatal.

Depois de luta e mais luta,
Vendo que o clamor não cala,
O Brasil num “ato nobre”
Abre as portas da senzala...
Estando os negros libertos,
Foram os portões abertos,
Mas... e a nobreza do ato?
Sem emprego e profissão,
Ou tem nova escravidão,
Ou envereda pra o mato!

Assim um novo contexto
Foi ao negro apresentado:
Sem ter nenhuma opção,
Foi esquecido e negado...
Excluído da cidade,
Numa falsa liberdade,
Nova senzala o prendeu...
Novas formas de Palmares
Chegaram a novos lugares,
Como a Serra do Abreu!

No lombo de todo um povo
A ferida tracejada,
Que dói no corpo e na alma
Em cicatriz mal sarada...
Sangrando em todo um Brasil
Que jamais lhe consentiu
“O penhor dessa igualdade”...
O tronco mudou de nome,
Se fez abandono, fome...
Exclusão, desigualdade!

Nos novos tempos de agora,
Nosso povo misturado
Já não é negro, nem índio;
Nem só o branco isolado.
Somos mistura sem raça,
Ainda sob a fumaça
Do fogo do preconceito,
Que ainda insiste em queimar,
Demorando a se apagar,
Atiçando nosso peito!

Eu me pergunto até quando
O nosso Brasil formado
Por gente de toda cor,
“Tudo junto e Misturado”,
Alimentará a dor
De eleger pela cor
Merecedores de apreço...
Enquanto o país se cala
Reconstruindo a senzala
E o negro pagando o preço!

Por: Valdí Medeiros de Oliveira
Poema alusivo à questão da gente negra no Brasil.
Classificado em 2° lugar (entre mais de duzentos concorrentes) no Prêmio Literário de Poesia "Demócrito Humberto da Fonseca Júnior" – 2015, concurso realizado pelo Museu do Homem, em Cuité-PB.

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