terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

PAI...



Você nunca lerá esse texto em sua homenagem. Mas quem te ama, sim. Até mesmo aqueles que apenas ouviram falar de você!  Isso causa uma profunda reflexão, não como a efemeridade da vida atinge a todos nós, mas como a sua ausência pode ter um alcance muito maior do que a sua presença. É o faltar fisicamente dando lugar ao preenchimento do vazio pela lembrança. Lembrança cuja consistência intriga a cada um dos amantes do que é bom, mas que ficou pra trás. Sendo assim, apesar desse texto ser dedicado a você, serão outras pessoas que o lerão!
Nesse instante, sua forma antes palpável, assume um lugar cósmico não tátil. É como se o seu corpo desse corpo a uma ideia, uma filosofia de vida, um caminho, um conselho, um abrigo. Seu corpo é devolvido ao mundo em outra perspectiva, incomensurável, transcendental...
No princípio nada havia. A não ser o desejo do Criador de que o tudo tomasse conta do vazio que o cercava. No momento em que o Senhor uniu o seu fôlego à terra e a alma antes apenas sonhada passou a ser vivente, a história mudou. A vida passou a ser celebrada a cada novo suspiro, a cada gota de orvalho minunciosamente analisada pela mente virgem e altamente capacitada a entender os detalhes. Todos os dias as descobertas feitas geravam uma excitação incomum ao novo mundo. Infelizmente, a curiosidade fez com que a humanidade recém formada de modo divino quisesse desbravar o fim da vida. O que só teria introdução e desenvolvimento perenes, passou a ter um final. Com isso, a magia da devolução passou a existir sobre a terra: O pó volta ao pó e o fôlego volta a Deus...
Quanto a este último, por ser mistério, é, por hora, indecifrável. Mas o primeiro, este continua conosco, afinal, para onde vai o pó? Para outras galáxias? Não! Continua conosco! E é exatamente esse pó que se transfigura em múltiplas centelhas de possibilidades. Você, pai, continua aqui conosco. Suas moléculas ainda estão por aqui. Seus átomos espalham-se ao nosso redor. E mais que isso: Suas ideias, seu comportamento e sua forma de interpretar e viver a vida se fazem presente entre nós!
Como passageiros que somos nessa vida, todos recebemos o pó e o fôlego e no fim da viagem devolvemos esses elementos ao seu lugar de origem. Usamos o ar que um dia foi de outros, ouvimos os sons que um dia serão de outros, falamos o que ouvimos de outros e tocamos naquilo que um dia será composição de uma outra matéria orgânica. Tudo isso significa que somos temporariamente o que outros foram biologicamente e que outros serão, guardando suas especificidades.
A memória é o bem mais precioso que podemos deixar enquanto usamos uma roupagem transitória nessa vida. E você, pai, se vestiu divinamente. Deixou belíssimas recordações capazes de gerar debates, formar opiniões, aprimorar relações, destravar ideologias retrógradas, caracterizar um novo conceito sobre a paciência e o altruísmo, além de estabelecer regras para viver honestamente, mesmo em um mundo tão corrupto.
Um dia, assim como você, estarei espalhado pelo mundo. O “somos” se transformará em “fomos” pra depois atingir o “nirvana” vocabular “sendo”, pois a vida irá se refazer todos os dias. O “nós” de hoje não será o mesmo “nós” de amanhã, mas continuará sendo sempre usado. É essa a mágica da mutação e da continuidade: Saber que um pouco do “nós” de ontem será semeado no “nós” de agora e acabará constituindo o “nós” de amanhã! Nesse momento, a visão do sofrimento será diferenciada pois teremos a certeza de que um dia, contrariando todas as leis do tempo e do espaço, o “nós” finalmente será um só.

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