Você
nunca lerá esse texto em sua homenagem. Mas quem te ama, sim. Até mesmo aqueles
que apenas ouviram falar de você! Isso
causa uma profunda reflexão, não como a efemeridade da vida atinge a todos nós,
mas como a sua ausência pode ter um alcance muito maior do que a sua presença.
É o faltar fisicamente dando lugar ao preenchimento do vazio pela lembrança.
Lembrança cuja consistência intriga a cada um dos amantes do que é bom, mas que
ficou pra trás. Sendo assim, apesar desse texto ser dedicado a você, serão
outras pessoas que o lerão!
Nesse
instante, sua forma antes palpável, assume um lugar cósmico não tátil. É como
se o seu corpo desse corpo a uma ideia, uma filosofia de vida, um caminho, um
conselho, um abrigo. Seu corpo é devolvido ao mundo em outra perspectiva,
incomensurável, transcendental...
No
princípio nada havia. A não ser o desejo do Criador de que o tudo tomasse conta
do vazio que o cercava. No momento em que o Senhor uniu o seu fôlego à terra e
a alma antes apenas sonhada passou a ser vivente, a história mudou. A vida
passou a ser celebrada a cada novo suspiro, a cada gota de orvalho
minunciosamente analisada pela mente virgem e altamente capacitada a entender
os detalhes. Todos os dias as descobertas feitas geravam uma excitação incomum
ao novo mundo. Infelizmente, a curiosidade fez com que a humanidade recém
formada de modo divino quisesse desbravar o fim da vida. O que só teria
introdução e desenvolvimento perenes, passou a ter um final. Com isso, a magia
da devolução passou a existir sobre a terra: O pó volta ao pó e o fôlego volta
a Deus...
Quanto
a este último, por ser mistério, é, por hora, indecifrável. Mas o primeiro,
este continua conosco, afinal, para onde vai o pó? Para outras galáxias? Não!
Continua conosco! E é exatamente esse pó que se transfigura em múltiplas
centelhas de possibilidades. Você, pai, continua aqui conosco. Suas moléculas
ainda estão por aqui. Seus átomos espalham-se ao nosso redor. E mais que isso:
Suas ideias, seu comportamento e sua forma de interpretar e viver a vida se fazem
presente entre nós!
Como
passageiros que somos nessa vida, todos recebemos o pó e o fôlego e no fim da
viagem devolvemos esses elementos ao seu lugar de origem. Usamos o ar que um
dia foi de outros, ouvimos os sons que um dia serão de outros, falamos o que
ouvimos de outros e tocamos naquilo que um dia será composição de uma outra
matéria orgânica. Tudo isso significa que somos temporariamente o que outros
foram biologicamente e que outros serão, guardando suas especificidades.
A memória
é o bem mais precioso que podemos deixar enquanto usamos uma roupagem
transitória nessa vida. E você, pai, se vestiu divinamente. Deixou belíssimas
recordações capazes de gerar debates, formar opiniões, aprimorar relações,
destravar ideologias retrógradas, caracterizar um novo conceito sobre a
paciência e o altruísmo, além de estabelecer regras para viver honestamente,
mesmo em um mundo tão corrupto.
Um
dia, assim como você, estarei espalhado pelo mundo. O “somos” se transformará
em “fomos” pra depois atingir o “nirvana” vocabular “sendo”, pois a vida irá se
refazer todos os dias. O “nós” de hoje não será o mesmo “nós” de amanhã, mas
continuará sendo sempre usado. É essa a mágica da mutação e da continuidade:
Saber que um pouco do “nós” de ontem será semeado no “nós” de agora e acabará
constituindo o “nós” de amanhã! Nesse momento, a visão do sofrimento será
diferenciada pois teremos a certeza de que um dia, contrariando todas as leis
do tempo e do espaço, o “nós” finalmente será um só.
Nenhum comentário:
Postar um comentário