terça-feira, 12 de julho de 2011

DE ÓCULOS

“Se as meninas do Leblon não olham mais pra mim, eu uso óculos.
E volta e meia eu entro com meu carro pela contramão, eu tô sem óculos. Se eu tô alegre eu ponho os óculos e vejo tudo bem,
mas se eu tô triste eu tiro os óculos eu não vejo ninguém.”
Através da letra dessa música, pude nos anos 80 refletir sobre a triste realidade de ter de usar óculos, iniciada na mais tenra idade, com apenas cinco anos. Ouvir expressões desagradáveis como: “Quatro olhos!”, “Velma!” (Referência a personagem de Scooby Doo), ou “Fundo de garrafa!”, entre tantas outras palavras típicas de uma verdadeira “bulimia ocular” era tão somente o “princípio das dores”! Após alguns anos, este objeto tão controverso, além de me dar a possibilidade de enxergar o mundo com “outros olhos” e me dar tanta tristeza com o tratamento dos “normais”, estava aos poucos despertando em mim uma paixão avassaladora. Eu fui descobrindo aos poucos que podia viver sem muitas coisas ou pessoas que amava, mas sem os óculos de forma alguma!
Cada vez que eu quebrava os óculos meu mundo parava. As aulas deixavam de acontecer em pleno período de prova, minhas exposições na universidade eram canceladas ou adiadas, meu namoro ficava temporariamente interrompido, minhas leituras tão queridas não aconteciam, meus filmes, programas de tv e minhas novelas não eram assistidos nestes dias, meu emprego era ferozmente ameaçado pela minha ausência indiscutível, enfim, o planeta deixava de girar como de costume e esperava pacientemente pela resolução do meu “probleminha...”
Dos anos 80 para os 90 essa situação era muito pior que atualmente, pois eram semanas aguardando a chegada do meu novo amor. Hoje, alguns dias apenas me separam de uma renovada paixão, embora durante esse tempo de separação meu mundo continue do mesmo jeito dos tempos de outrora: parado.
Em 2009 tive a relação abalada por uma plano de separação muito bem elaborado pela minha esposa: O uso de lentes de contato. Meu coração ficou partido. Participei de festas, cultos na igreja e de outros eventos, deixando em casa, desconsolado, meu inseparável amor. Em 2010 tudo voltou ao normal, fizemos as pazes e retornamos com nosso relacionamento de intensa paixão, participando juntos inclusive de meu retorno aos gramados no último dia 26, na Chácara Menino Deus (Embora continue causando até hoje espanto essa nossa cumplicidade dentro de um campo de futebol!).
Acredito que nem a medicina, nem a religião, nem qualquer outra força do universo podem explicar essa relação homem/objeto, ao ponto de um não conseguir viver sem o outro. Agora surge no horizonte uma perspectiva de volta no tempo e a possibilidade de voltar a ser aquele menino que tinha a visão perfeita no início da década de 80 através de uma cirurgia. Início de uma nova vida com um novo prisma a ser observado literalmente, ou a morte de uma grande paixão? Ai, ai...

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