O que é mais importante que o topo?
No momento exato em que percebemos
que subimos uma ladeira por tanto tempo, até o instante em que fica claro que
não há mais o que subir, essa indagação torna-se indispensável. O cume tão almejado traz no alto da bandeira fincada
como celebração da vitória, a seguinte mensagem codificada que responde a indagação inicial: “A linearidade é
mais importante que o topo”. Nesse
instante só se passa pela cabeça que na verdade falta apenas um minuto para o
fim do mundo. Do nosso mundo.
Por mais que se tenha a convicção de
que a alma não envelhece, algo se perde na poeira da ampulheta... Nossos
estímulos, sonhos, objetivos e desejos começam a ser apagados pela força motriz
da gravidade cronológica. Tudo ao nosso redor muda. As ruas mudam, as músicas mudam, o sabor das
coisas muda, o sol muda, a lua muda, as pessoas mudam.
Sobre a efemeridade da vida e das débeis discussões
só percebidas nitidamente com a idade, divagava o grande Rubem Alves: “As pessoas não debatem
conteúdo, apenas rótulos. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos. Quero
a essência. Minha alma tem pressa”
e essa pressa se deve ao fato de que toda ladeira possui além de subidas,
descidas, e o tempo não espera por nós... Já Fernando Teixeira diz:
Há
um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas ...
Que já têm a forma do nosso corpo ...
E esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos
mesmos lugares ...
É o tempo da travessia ...
E se não ousarmos fazê-la ...
Teremos ficado ... para sempre ...
À margem de nós mesmos...
Que já têm a forma do nosso corpo ...
E esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos
mesmos lugares ...
É o tempo da travessia ...
E se não ousarmos fazê-la ...
Teremos ficado ... para sempre ...
À margem de nós mesmos...
De repente você se olha no espelho e
marginalizado, reconhece: “Metade da minha vida se foi! Caramba!” E a única
palavra de consolo é: “Mas tenho bastante experiência acumulada!” Replico, pois:
Experiências... Melhor vivê-las, que tê-las! Independente dos momentos de amor
e ternura usufruídos, a linearidade será nossa única salvaguarda. Caso
contrário, só nos restará dizer: “Que
amor era esse, que não saiu do chão? Não saiu do lugar, só fez rastejar o
coração...” A linearidade mostrar-se-á, nessa hora, mais importante que o
topo e menos latente que a descida...

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