sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

QUANDO ALGUÉM CHORA

       

         Experimenta chorar ao lado de uma criança pequena. Eu arrisco dizer que não vai rolar:

"Tá chorando sem motivo, quer um motivo de verdade pra chorar?" 
"Nem doeu, pare de drama." 
"Não precisa chorar!" 
"Chorona/chorão, chora por tudo." 
"Você não tem mais idade pra chorar!" 
"Você já é um rapaz/mocinha!" 
"Fica tão feio/feia chorando!" 

       Muito provavelmente ela vai te olhar com um rostinho preocupado e tentar te acalentar de algum jeito. Pode ser que ofereça um brinquedo, um abraço ou qualquer outra forma de carinho. Esse julgamento do sentimento do outro é ensinado, geração após geração, sem que nos questionemos as consequências dessas palavras. Não, você não tem que atender a todos os desejos de uma criança, mas menosprezar o seu sentir certamente não é a outra única opção. Somos naturalmente compassivos. Esse dedo apontado é aprendido. Fomos tantas vezes desrespeitados em nossa infância, desconsiderados em nosso sentir, que desaprendemos a acolher. 
    Pela nossa saúde emocional, mental e física, aproveite a criança mais próxima pra relembrar como agir quando alguém chora. Quebre esse ciclo. Oferte um abraço, um ombro amigo. Substitua o "cale a boca" por um "eu sinto muito!". E se a sua ferida aberta for tão grande que lhe impede de acolher - e todos temos essas feridas, afinal - é chegada a hora de cuidar dela, em vez de causar feridas nos outros. Se esforce para reconhecer quando a sua criança silenciada quer vir a tona pra silenciar. 
    Eu sonho com o dia em que essas frases desaparecerão do nosso vocabulário. Seu filho/filha não merece ouvi-las. Você não mereceu ouvi-las. Ninguém merece. 

Por: Elisama Santos

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