Aniversariar é a arte de envelhecer. É ver a areinha da ampulheta mais embaixo que em cima, é sorrir por ter perdido alguma coisa enquanto busca encontrar outra, que na verdade não se sabe o que é. Ou se sabe, mas não se dá a devida importância enquanto se tem: O tempo...
O tempo passa mais veloz à medida em que a idade vai avançando e de repente você se pega tendo vantagens que na flor da juventude não tinha, tais como: Gratuidade em passagens intermunicipais; lugar pra sentar no ônibus, ainda que lotado; aprovação em concursos que você talvez nunca vai assumir efetivamente, mas que no desempate você venceu; local exclusivo pra estacionar; dentre outras. Ou seja, você dorme menino, acorda um homem. Pisca os olhos e já é um senhor de meia idade, pisca de novo, e já está na "melhor idade". Nesse momento você pensa: "Vou parar de piscar enquanto é tempo!"
A compreensão de que a vida é passageira, infelizmente, só acontece quando estamos do meio pro fim da viagem. As coisas que realmente importam só são notadas quando percebemos que os supérfluos não nos levaram a absolutamente lugar nenhum! Os novos ciclos e recomeços diminuem a sua incidência sobre nós no exato instante em que a motivação e o desejo de aspirar novidades começam a rarear...
Na infância, o que permeia nosso imaginário é aquele boneco da tv, o carrinho super irado do Batman, o jogo incrivelmente divertido chamado Genius, ou o moderno videogame da Nintendo. Quando crescemos, nossas prioridades e anseios mudam radicalmente. Nosso sorriso com presentes recebidos é menor do quando damos a quem amamos; uma cartinha repleta de erros ortográficos é recebida dos filhos com muito mais paixão do que uma carta de qualquer que seja a autoridade; receber uma roupa íntima e algumas camisetas no aniversário é algo bastante festejado, já que é uma economia a mais no nosso apertado orçamento doméstico.
Com o avanço dos anos, vai ficando cada vez mais distante a comemoração das vitórias de Ayrton Senna; a farinha com açúcar comida todas as tardes enquanto Tex era o companheiro inseparável de aventuras; as músicas com harmonia, melodia e letras (pasmem: Letras!) com comprovada qualidade vão ficando pra trás; o tetracampeonato mundial de futebol do Brasil parece surreal após os 7x1; a Tv Pirata, a Escolinha do Professor Raimundo, as novelas da Globo, dentre outros programas de tv, hoje assistidos com rara e difícil frequência; o feijão da vovó, o mingau da mamãe, os docinhos da irmã, a carne de panela da cunhada... Os amigos hoje findos; as paqueras irrelevantes; os maridos separados das amigas, as mulheres divorciadas dos amigos; os empregos exaustivos, mas saudosos; as lágrimas bobas, mas contundentes na elaboração e ampliação da maturidade hoje existente.
É uma pena que um dia os aniversários passam a não ter mais o mesmo brilho de outrora. Principalmente quando o protagonista cessa o processo de piscar e ficar mais velho... O brado de parabéns dá lugar ao silêncio triste da saudade, a euforia causada pelas homenagens bem humoradas fica apenas na lembrança e uma data tão linda quanto a de hoje fica eternizada em nossos corações como um momento em que celebrávamos a vida, mas que hoje refletimos sobre o porquê do piscar de olhos não mais acontecer. Por causa disso, a ausência da progressão da alvura dos cabelos não é mais uma realidade em nosso meio.
Fica dentro do peito apenas a certeza de que um dia seremos nós os próximos a não mais piscarmos e a apagarmos na poeira do tempo o sentido do dia dos antigos "parabéns pra você"...

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