sexta-feira, 8 de abril de 2011

A CARTA


          Escrever cartas é uma arte. Mais do que mandar um e-mail, enviar um torpedo, postar um texto em algum site, ou utilizar  qualquer outro meio moderno, esta arte define muito do caráter do escritor, que precisa ter domínio sobre regras de escrita, valorização do subjetivo, exposição de sentimentos dinâmicos por meio do estático, dentre outros aspectos.
          Através de uma carta se pode expressar os mais genuínos desejos guardados no peito, escrevendo muitas vezes à mão, solicitando, expondo, relembrando, rotulando, justificando, propondo, projetando e muitos outros gerúndios, mas, pessoalmente, sou fã de cartas de amor, de reconciliação ou de reconhecimento, ao passo em que detesto cartas de despedidas.
         Nesta quinta-feira, uma carta de despedida chegou ao conhecimento do povo brasileiro, aos “puros” e aos “impuros”. Era a carta de Wellington Menezes de Oliveira, de apenas 23 anos, que disparou na escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, zona oeste do Rio de Janeiro, quase 60 tiros em duas salas no primeiro andar da escola.
         Infelizmente muitos desses tiros encontraram o endereço planejado pelo assassino, que em poucos minutos marcou para sempre a história do nosso país, fazendo de um lugar de construção do conhecimento, um palco de massacre e terror sem precedentes na nossa história.
         Eu, como professor e pai, não deixei de chorar ao ver consternado as cenas de selvageria e falta de Deus, na televisão, ontem. Cerca de 400 alunos estavam assistindo aula tranquilamente, como de costume, quando a barbárie começou a acontecer no colégio. Ao todo, entre mortos e feridos, mais de 20 adolescentes entre 13 e 14 anos, preferencialmente meninas, foram alvejados sem piedade, enquanto o assassino ria, ouvindo os pedidos de clemência, sem nada alterar seu objetivo de morte.
          Em sua mochila foi encontrada uma carta de despedida, seu conteúdo estava recheado de expressões como “Deus”, “puro”, “perdão”, etc. e eu fico a me perguntar: Como alguém com tamanha crueldade pode usar tantas expressões comumente associadas a vida e a fé? Como alguém pode premeditar não apenas a sua morte, mas sentenciar tantos a igual destino e ainda pedir para que alguém ore em seu túmulo, pedindo perdão para sua alma atribulada? Como alguém se julga no direito de fazer exigências inclusive ao manuseio do seu corpo com cuidado e “pureza”, se não houve nem sequer uma gota de clemência em seus atos?
          Leia  a seguir a carta escrita à mão por Wellington na íntegra:

“Primeiramente deverão saber que os impuros não poderão me tocar sem luvas, somente os castos ou os que perderam suas castidades após o casamento e não se envolveram em adultério poderão me tocar sem usar luvas, ou seja, nenhum fornicador ou adúltero poderá ter um contato direto comigo, nem nada que seja impuro poderá tocar em meu sangue, nenhum impuro pode ter contato direto com um virgem sem sua permissão, os que cuidarem de meu sepultamento deverão retirar toda a minha vestimenta, me banhar, me secar e me envolver totalmente despido em um lençol branco que está neste prédio, em uma bolsa que deixei na primeira sala do primeiro andar, após me envolverem neste lençol poderão me colocar em meu caixão. Se possível, quero ser sepultado ao lado da sepultura onde minha mãe dorme. Minha mãe se chama Dicéa Menezes de Oliveira e está sepultada no cemitério Murundu. Preciso de visita de um fiel seguidor de Deus em minha sepultura pelo menos uma vez, preciso que ele ore diante de minha sepultura pedindo o perdão de Deus pelo o que eu fiz rogando para que na sua vinda Jesus me desperte do sono da morte para a vida eterna.

Eu deixei uma casa em Sepetiba da qual nenhum familiar precisa, existem instituições pobres, financiadas por pessoas generosas que cuidam de animais abandonados, eu quero que esse espaço onde eu passei meus últimos meses seja doado a uma dessas instituições, pois os animais são seres muito desprezados e precisam muito mais de proteção e carinho do que os seres humanos que possuem a vantagem de poder se comunicar, trabalhar para se alimentarem, por isso, os que se apropriarem de minha casa, eu peço por favor que tenham bom senso e cumpram o meu pedido, por cumprindo o meu pedido, automaticamente estarão cumprindo a vontade dos pais que desejavam passar esse imóvel para meu nome e todos sabem disso, senão cumprirem meu pedido, automaticamente estarão desrespeitando a vontade dos pais, o que prova que vocês não tem nenhuma consideração pelos nossos pais que já dormem, eu acredito que todos vocês tenham alguma consideração pelos nossos pais, provem isso fazendo o que eu pedi.’’

            Avaliando isoladamente o conteúdo dessa carta, não dá pra se fazer um diagnóstico do atirador. Segundo o psiquiatra forense Marcos Gebara, o assassino estava sob um “surto psicótico paranoide delirante alucinatório” como se Wellington estivesse incumbido de uma missão e assim a cumpriu, fazendo com que esse triste acontecimento tomasse conta do noticiário mundial.
                É triste saber que na casa de tantas famílias as lágrimas de dor e desespero vão durar pela vida inteira, saber que tantas armas continuam facilmente a disposição de sociopatas que talvez nem saibam ainda que o são, saber que mesmo em ambientes saudáveis e conhecidos pela tranquilidade e paz estejam na mira de doentes, cujo tratamento possivelmente não existe, saber que pelo menos dessa vez, uma carta de despedida escrita pelas vítimas seria tão bem vinda...
                É... dói muito saber que não voltarão mais pra casa, que o único que teve tempo de escrever uma carta de despedida não era um artista das palavras, dominador das missivas e epistolas, mas alguém que agora faz parte da história de tantos “brasileirinhos que foram retirados tão cedo da vida” por ele mesmo. Até que ponto a maldade humana vai continuar imperando em nossa sociedade? Como evitar atos como esse? Como evitar a sociopatia, os distúrbios psicológicos e os desvios de conduta?  Quando estaremos livres de assassinos  como esse? Será que um dia a humanidade estará apta a reescrever uma nova carta valorizando a vida, o amor e a liberdade?


Um comentário:

  1. Mesmo que o seu texto não chegue às mãos dos familiares que sofrem em dor, ele cumpre a sua função social, por nos confortar, ao percebemos, durante a leitura, que ainda existem pessoas de boa índole, capazes de dedicar um tempo de sua vida para aquecer os corações daqueles que partilham sentimentos como esses, de impotência e insegurança em relação ao futuro. Sua sensibilidade nos comove, e nos enche da esperança que dias melhores virão! Parabéns!

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