segunda-feira, 5 de novembro de 2012

ÚLTIMAS PALAVRAS



_O que você está fazendo aqui? 


_Vim te buscar... 

_Mas eu ainda sou tão jovem! 

_Eu sei, eu sei. Com 74 anos o senhor ainda está na flor da idade, mas fazer o quê, né? 

_Não tem nem como a gente protelar um pouquinho...? 

_Não tem, infelizmente... 

_Tenha piedade, por favor! 

_Claro, claro. Eu tenho. E responsabilidade também. 

_Se não existe meio de escape pra mim, qual a razão desse diálogo? 

Silêncio sepulcral. 

_Vamos partir? 

_Mas eu ainda nem tive tempo de me despedir dos meus parentes... 

_É esse o sentido da viagem final. Não se despedir, pra que os que ficarem possam refletir sobre o que fizeram ou deixaram de fazer por e para você. 

_Por que alguns tem essa oportunidade e outros não? 

_Por que alguns aceitam a idéia sem questionar e outros não? 

Fúnebre silêncio. 

_Enfim, vamos partir? 

_Existem alternativas? 

_Não. 

_Então por que me pergunta algo que você já sabe a resposta e que não poderá atender? 

_Pra não fazê-lo partir de surpresa. 

_Só me diz uma coisa: Pra onde eu vou? 

_Que diferença faz? A vida é uma só, mas as teorias existentes sobre a morte são tantas... 

_É muito importante pra mim saber qual o caminho que eu vou seguir após a morte! 

_O que diz a sua religião? 

_Eu não tenho religião. 

_Então você não faz idéia do que o espera do outro lado? 

_Não, não faço idéia... 

_Então pra quê temer? 

_É o medo do desconhecido, você entende, né? 

_Não, não entendo... Analise comigo: Você nasceu em uma época distante, cresceu em um ambiente completamente diferente do atual, teve sensações despertadas por um mundo de paixões completamente diferentes das atualmente experimentadas pela juventude do século XXI, amadureceu em um tempo de transformações sociais que moldaram seu caráter e suas atitudes diante das adversidades, ganhou dinheiro com empreendimentos de sucesso, perdeu dinheiro com alternativas fracassadas de ganhar mais, amou e foi amado, odiou e foi odiado, perseguiu e foi perseguido, foi justo em decisões difíceis e injusto em decisões fáceis, foi homenageado em vários momentos pelos muitos serviços prestados e questionado por não ter agido quando mais precisavam de você. Deu muitas alegrias a senhoritas na cama e decepcionou a outras, com a célebre frase:”Isso nunca me aconteceu antes!”. Foi pai herói e pai bandido, bom vizinho, péssima companhia, beneficiou a muitos com sua presença e aliviou a outros com sua ausência, foi correto em caminhos tortos e torto em caminhos corretos. Acima de tudo isso, o que quero enfatizar é que as situações vividas dia após dia justificaram um bom, longo e próspero viver, valorizando no desconhecido, um mundo de possibilidades! Um novo mundo de possibilidades agora o aguarda. Pode ser um recomeço ou um final glorioso, mas o seu momento chegou... 

_Tudo bem, tudo bem... Você venceu. Aliás, você sempre vence, né? Já que de qualquer forma “cumpri minha sentença e hei de encontrar-me com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre.” Posso dizer pelo menos minhas últimas palavras? 

_Fique à vontade. 

_Eu não tenho 74 anos, mas 75... Você errou! Há, há! 

_Como assim? Você não nasceu em 1938? 

_Não, nasci em 1937. 

_Seu nome não é Severino Andrade Barbosa Filho? 

_Não. É Altamir Pereira de Vasconcelos. 

_Nossa! Desculpe, senhor, mas foi engano... Eu deveria estar conversando com outra pessoa, em outro leito! 

_E agora? 

_Siga sua vida, ainda lhe resta um bom tempo pela frente! 

Sumiu. Severino pensou, sorrindo:

_Faltava ainda no meu currículo: “Enganou até a própria morte”! Há, há, há!

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