Dois
homens perdidos no deserto da vida, exaustos de tanto caminhar na contramão da
sociedade, com os pés feridos e marginalizados, os passos fracos impostos pelos
líderes políticos, o suor escorrendo pelo rosto a ponto de não enxergarem
direito o caminho pra se livrarem da hipocrisia dos religiosos e falsos
moralistas e a mente começando a sofrer alucinações típicas dos efeitos do sol de
preconceitos ao qual estavam sendo submetidos, subitamente deliram em uníssono:
_Oh, o que vejo? Será
um açude? Estou com tanta sede! Vou correndo ao seu encontro!
_Não, querido amigo,
isso que você está vendo não passa de uma piscininha pra criança da high society! Não é lugar pra gente como
nós!
_Não importa! O calor é
tão grande que eu me jogo dentro da piscininha infantil e espero alguém me
tirar de lá!
_E você vai beber dessa
água?
_É claro! Veja como
ela está límpida e convidativa!
_Pois é isso mesmo! Se
estivesse esverdeada, parecendo mais um lamaçal, talvez nos deixassem entrar!
_Meu amigo, com o
calor que estou sentindo e com essa sede infernal que me consome, acho que não
vou resistir...
_Espera! Você não está
vendo ao lado uma sorveteria? Vamos, deve ter coisa boa lá!
_Deve sim, mas nós não
temos dinheiro!
_Pode ser que eles
estejam distribuindo gratuitamente sorvetes e água mineral, afinal, nesse
solzão...
_E aquele “cinco e
noventa e nove” bem grande na entrada do estabelecimento, o que será?
_Verdade, não tinha
visto. O suor está cegando meus olhos... Aquele valor nos separa
automaticamente dos mauricinhos que estão entrando lá!
_Mas, olha, se nos
esforçarmos um pouco mais poderemos nos refrescar no ar condicionado daquele
cinema, por trás da sorveteria e ainda aproveitar pra assistir “Star Wars – O despertar
da força”!
_É mesmo! Ah... Não
vai dar não...
_Por que não?
_Olha o tamanho da
fila! Está virando o quarteirão!
_Nossa! É verdade! E
mesmo, está todo mundo usando roupas alusivas ao filme. Não dá pra gente!
_Que tal se nós
entrássemos naquela loja de roupas à esquerda da piscininha infantil?
_A gente vai comprar
roupas?
_Não, só pra
relaxarmos em uma daquelas confortáveis e luxuosas poltronas, na temperatura
geladinha do ar condicionado...
_Ah, que pena... Não
vai dar, olha só o traje das pessoas que estão lá dentro e das que estão entrando.
Maltrapilhos como estamos, aquele segurança nunca nos deixaria entrar!
_E naquele barzinho?
Teríamos além de algo pra beber, boa música e...
_Tem muitos bêbados
lá! Só arrumaríamos confusão!
_E aquele banco de
praça?
_Muitos pombos
sobrevoando o local. Ficaríamos mais sujos ainda!
_Além das doenças, né?
_Pois é... E aquele
guarda não iria querer que manchássemos a imagem bela desse jardim de caminhada
e passeios familiares com nossas esquálidas condições...
_Sabe de uma coisa? Acho
que mesmo com sede, moribundos, sujos e com roupas rasgadas, nós temos nosso
valor e não precisamos nos submeter a nenhum tipo de humilhação. É melhor
seguirmos caminho e esperar novas miragens mais compatíveis com nossa realidade
social, você não acha?
_Isso! Afinal, é
melhor morrer dignamente, do que cedermos às chantagens do capitalismo moderno!
_Se essa é nossa sina,
sigamos nosso caminho!
O problema não consiste necessariamente
em andar à margem,
Consiste em não ter a oportunidade de
fazer essa escolha.

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