segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

JESUS NASCEU POBRE


Você não precisa ser cristão, não precisa acreditar em Deus, nem mesmo precisa acreditar que Jesus existiu de fato. Não importa. Inegável é que o Evangelho narra o nascimento de um bebê em situação de pobreza. Essa é a estória.

Seus primeiros dias de vida foram num estaleiro, entre o fedor e a imundice de cavalos, bois e vacas. Cena romantizada em presépios bonitinhos em igrejas e shoppings luxuosos, porque temos imensa dificuldade de aceitar a pobreza - mais ainda a do salvador do mundo.

Mesmo depois de dois milênios, a narrativa sobre Jesus continua viva porque continua sendo a verdade sobre quem é pobre. É uma metáfora perene. O pobre, nesse mundo, é sempre o culpado. Jesus foi vítima de um sistema opressor, chamado Império Romano, e morreu como culpado, pregado numa cruz. 

Até hoje, a vida do pobre é assim.

Em última análise, do meu ponto de vista, a mensagem da ressurreição é para os pobres. É uma mensagem de esperança para quem vive esmagado pelos poderes econômicos e políticos. Mas como em todo o resto, os poderosos se apropriaram dessa narrativa para recontar uma estória que favorecesse à si mesmos. Jesus, que falou contra um império e por ele foi assassinado, teve sua mensagem cooptada por outros impérios, que passaram a usa-la para oprimir ainda mais, até os dias de hoje.

O importante, contudo, é não perder de vista o sentido do nascimento de Jesus, segundo a narrativa dos Evangelhos e não segundo a narrativa da Igreja - muito menos segundo à narrativa econômica que empurra milhões de pessoas às compras.

Ainda culpamos as vítimas pelas dores do mundo. Ainda pregamos pobres na cruz, para morrerem pelas culpas que carregamos, mas não queremos admitir. 

A culpa ainda é da mulher estuprada, que usava saia e decote, e não do estuprador. 

A culpa ainda é do menor ladrão e batedor de carteiras, que rouba para usar drogas, e não da falta de oportunidades que a sociedade oferece à ele. 

A culpa ainda é da mulher que quer abortar, mesmo depois de um estupro, e não de uma sociedade que protege e privilegia homens. 

A culpa ainda é dos negros e negras, que não conseguem oportunidades acadêmicas ou no mercado de trabalho, e não dos brancos que os escravizaram por séculos. 

A culpa ainda é dos gays, que querem ser tratados como pessoas, e não de uma sociedade que pretende desumaniza-los. 

A culpa ainda é da puta, que vende sua alma para comer, e não de quem paga pelo prazer obtido na miséria. 

A culpa ainda é dos refugiados, que fogem de suas casas para lutar por suas vidas, e não dos interesses econômicos que trocam vidas humanas por barris de petróleo. 

A culpa ainda é dos índios, que querem terra para viver, e não de quem não respeita a memória histórica e a ancestralidade desse país.

A culpa ainda é de Jesus, que tinha uma mensagem libertadora, e não do Império que o matou para calar a sua boca.

Jesus era o vagabundo, o bêbado, o desocupado, o agitador, o defensor de bandido que andava com puta. Não tem jeito, antes, durante e depois de Jesus, ser pobre sempre será crime para o establishment. 

O natal é mais do que uma data, é uma memória da nossa vergonha. É um símbolo que sempre nos colocará contra a parede, nos perguntando: do lado de quem você está?

Do lado de quem você está?

Feliz natal!

(Por: Lucas Lujan)

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