quinta-feira, 17 de março de 2011

COMO PERDER UMA CAUSA

Existe algo muito difícil de ser concebido no meio social em que vivemos: a perda de uma causa. Os advogados se esmeram no cumprimento da profissão, passando horas a fio na análise profunda de papéis,  documentos e relatórios, apenas para ter argumentos suficientes para vencer a causa que abraçou.
O professor, que, qual gladiador das palavras, números e teorias, julga-se superior ao aluno, e que, como tal, precisa defender sua tese em detrimento da do aluno, e para tanto, faz uso, muitas vezes indevidamente de sua influência ou posição; defende veementemente sua causa, ainda que o prejuízo para o aluno seja irreversível.
Dois torcedores, através de fanáticas discussões, tentam mostrar suas opiniões altamente inteligentes de ver o mundo futebolístico de maneira declaradamente partidarista. Ambos comungam das mesmas peculiaridades: torcem sem o cérebro, gritam sem a voz da razão, ouvem apenas o que lhes convém, e veem tão somente aquilo que querem ver: Seja um pênalti que não existiu (pra o outro foi tão claro!), ou ainda a operação infame de cerceamento da legalidade, com atos de improbidade administrativa dentro das quatro linhas por parte do árbitro da partida (para o outro a atitude dele foi irrepreensível!). A resposta para atitudes tão divergentes está na apropriação do mais natural dos sentidos humanos: querer que a sua causa seja a mais correta a ser seguida.
Situações semelhantes, pessoas e profissões diferentes... O que nos une, na verdade, é o fato de nos deixarmos envolver pelo sentimento de defesa do nosso “eu”, expresso pela linha tênue entre a razão e a sensibilidade. Parece uma inverdade, mas o orgulho próprio não nos permite aceitar uma derrota. Seja ela no âmbito político, ideológico, espiritual, social, ou até mesmo transcendental. O que nos leva a ações de defesa daquilo que é, na maioria das vezes efêmero, é exatamente o fato de sermos efêmeros. O que nos faz andar por caminhos egoístas é algo intrinsecamente enraizado no âmago de nosso ser: o egoísmo.
O ser humano é egoísta por natureza e expressa essa debilidade quando não aceita a opinião de outrem; quando não reconhece sua pequenez como traço de caráter comum aos tolos; quando acha que sua sensatez está se evidenciando apenas ao ouvir a opinião de alguém, mesmo que só por educação, quando na realidade já está armado contra ele; quando uma conversa amigável evapora-se numa nuvem de monólogos sem fim em questão de segundos; quando são considerados amigos verdadeiros somente aqueles que balançam a cabeça positivamente para tudo o que dizem, etc., etc., etc.
Entretanto, existe um motivo para o ser humano aceitar perder de vez em quando uma causa: a paz de espírito. A sensação de levar alegria a alguém pelo simples fato de reconhecer a idéia dele como a mais plausível, principalmente quando se sabe que a sua será destituída do status alcançada pela dele. O seu sorriso deve ser contemplado com ternura, ao invés de com aversão.
A satisfação de alguém, o ar de vitória estampado em seu rosto deveria ser mais gratificante pra quem vê do que pra quem o expressa. A atitude mais sensata na maioria das vezes é exatamente a menos utilizada, justamente porque o imediatismo em que vivemos leva-nos a querer naquela hora a aceitação das nossas opiniões ou dos nossos argumentos, mas o tempo, ah... esse não pára e outras oportunidades surgirão certamente. Oportunidades que se bem aproveitadas poderão frutificar em pensamentos e atitudes ligados por uma corrente altruísta de preocupação com o bem estar psicológico, moral e espiritual de quem nos cerca. E essa sim será a revelação de que algo diferente está acontecendo em nossa vida.
Ninguém nasceu pra perder, é verdade. Deus nos deu a capacidade de querer alcançar amanhã o inalcançável hoje, de buscar atingir o ápice de nossos ideais o mais rápido possível, de viver lutando pra respirar um ar de conquistas, sucessos e vitórias de modo cada vez mais contínuo, e tudo isso é maravilhoso. Ainda como ínfimos espermatozóides, já tínhamos essas atribuições. Já éramos aguerridos, valentes, e ao cabo, vitoriosos.
O importante, na realidade não é tentarmos modificar aquilo que é inerente ao ser humano e que a priori, não nos faz mal. É, antes, desenvolvermos a capacidade de lidar com tais características. Precisamos amar a nós mesmos, conhecer nossas limitações e anseios, para podermos efetuar a mudança que será verdadeiramente significativa nas nossas relações com os outros.
É preciso que se entenda que ao perder uma causa o homem não está necessariamente sendo derrotado. Antes, está apenas reconhecendo que alguém como ele, dotado de características distintas, utilizou um expediente mais apropriado para aquela circunstância e tem todo o direito de ser aceito como o que prevaleceu.
A vontade de vencer do advogado é movida pelo sonho da ascensão financeira e da fama, do professor é a sede de mostrar que seu saber e experiências acumuladas não são facilmente destruídas por alguém mais jovem, ou com menos estudo; os torcedores fanáticos priorizam a arregimentação de mais torcedores para o seu time, mas em todos os casos, vencedores se contrapõem aos vencidos. Declaram “falência múltipla dos órgãos” sociais enquanto debocham dos vencidos que tristemente reagirão amanhã da mesma maneira. Essa reação em cadeia deve e precisa ser evitada.
O que apresentamos aqui, não é a destituição dos traços de personalidade peculiares ao ser humano, mas sim, o alicerce desses parâmetros sob a rocha do reconhecimento, do olhar lançado com carinho para o outro e do amor como regente soberano de nossas ações. Estaremos facilitando as relações humanas quando com sinceridade ficarmos felizes com a vitória dos outros. Estaremos vivenciando, ainda que por um momento, o real sentido da paz de espírito. Não levaremos desaforo para casa, apenas o trataremos com respeito e sobriedade, mesmo que em casa.
Se cada um fizer a sua parte, o azul do céu resplandecerá mais, quase poderemos tocar no algodão das nuvens, porque para nós não existirão mais limites. Enquanto estivermos adotando medidas tacanhas nos nossos relacionamentos, estaremos presos no chão, o que é um paradoxo, já que buscamos sempre o mais alto degrau da vida. Enquanto não entendermos que dando-nos as mãos a subida torna-se mais agradável e rápida, estaremos apenas passando pela vida e não usufruindo dela. Enfim, não é preciso que essa causa apresentada por mim hoje seja aceita, apenas que seja analisada com ternura, bom senso e amor.  Se concordarem comigo, ótimo, se não, parabéns.  A NOSSA causa será sempre a vitoriosa.

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